sábado, 12 de agosto de 2017

Editorial: O Rio de Janeiro continua lindo?

Jean Galvão

Sob vários aspectos, é imensamente preocupante a presença das Forças Armadas no Estado do Rio de Janeiro. Neste contexto de crise institucional que o país atravessa, ainda mais. Há muitos "emblemas" ali envolvidos, como, por exemplo, os precedentes abertos com a crise política e econômica, cujas consequências no tecido social proporcionaram o convite a uma espécie de intervenção militar que já se prenuncia por um período considerável, em razão de se saber, antecipadamente, que não irá debelar a onda de violência naquele Estado. O mais grave são as "lições" que podem ser tiradas desta atuação dos militares. Como se sabe, a formação do militar não inclui abordagem, investigação policial, prevenção de delitos ou coisas do gênero, competências de domínio do policial civil, por exemplo. Eles, os militares, são treinados para outros objetivos. Portanto, o emprego, nessas operações, das Forças Armadas, culminam, quase sempre, em resultados pífios em termos de enfrentamento à violência urbana. 


Ainda mais surpreendente é ouvir o ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmar que se trata de um processo de "aprendizagem". A rigor, as Forças Armadas não precisam, não desejam e não querem esse tipo de aprendizagem. Trata-se aqui de uma total distorção de objetivos. Em editorial, o jornal Folha de São Paulo, do dia de ontem, 10/06, alerta para a possibilidade de os militares serem cooptados pelos traficantes de drogas, assim como já ocorre com a Polícia Militar, caso essa atuação se prolongue. Melhor seria deixar esse braço repressor do Estado de fora dessa possível "contaminação". Até recentemente, foi desbaratada uma quadrilha formadas por policiais militares que mantinham relações promíscuas com o mundo do crime, ao ponto de extorquirem traficantes que atuam naquele Estado. A grande aprendizagem dessa atuação é a de que os militares deveriam ficar de fora dessas operações.

 
A situação do Rio é gravíssima, a começar pelo péssimo exemplo dado pelos homens públicos que governam o Estado. Até os órgãos de fiscalização e controle dos negócios públicos estão comprometidos pela corrupção endêmica. Um dos seus governadores organizou não um secretariado, mas uma quadrilha para assaltar o erário, com consequências desastrosas para os níveis de confiança mínimos que devem existir entre governantes e governados. Neste cenário, o preposto do tal governador não possui nenhuma legitimidade para o exercício do cargo, uma vez que consta também está envolvido em ações lesivas ao interesse público. Há alguns meses, os servidores púbicos deixaram de receber os seus salários e os índices de desemprego - assim como em todo o país - estão altíssimos, criando sérios problemas sociais. O aumento sensível nos índices de violência é um deles.

É neste aspecto que o Rio de Janeiro se parece tanto com o Brasil. E, neste contexto, abre um precedente perigoso para o que pode vir pela frente, ou seja, criando a possibilidade de que aquela situação possa se generalizar para outros entes federativos. O Rio Grande do Sul também enfrenta uma situação parecida. Os componentes explosivos estão aí. Crise política - e de governabilidade -; crise econômica - os "alentos" de recuperação soaram apenas nos momentos que antecediam a votação da denúncia contra Michel Temer(PMDB) na Câmara Federal; um caótico quadro de insegurança pública; o pedido de socorro às Forças Armadas - de preferência por tempo indeterminado - uma vez que não se vislumbra uma luz no fim do túnel a curto ou médio prazo. Estão aqui os ingredientes que podem ferir sensivelmente a saúde de uma já fragilizada democracia. 

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