sexta-feira, 9 de junho de 2017

Editorial: A cultura da propina da Odebrecht


Mor



Creio que, no dia de ontem, durante mais de 04 horas, o ministro do TSE, Herman Benjamin, apresentou o seu relatório sobre o julgamento das contas de campanha da chapa Dilma-Temer, processo sobre o qual ele é o relator. Sua exposição alcançou elogios até mesmo do insuspeito ministro Gilmar Mendes, presidente daquela Corte. Embora convenha sempre fazer aqui o registro de que a tendência de votos de ambos sejam díspares. Como já se sabia desde o início, se dependesse apenas de Herman, a chapa seria cassada. Os debates no TSE contribuíram bastante para uma reflexão acurada acerca das fragilidades do nosso sistema político. A sociedade brasileira deve sair deste debate com a precisa convicção de que alguma coisa precisa ser feita para aperfeiçoar - reinventar seria o termo mais apropriado - um sistema político completamente necrosado por práticas distorcidas, absolutamente incompatível com uma aspiração mínima, que aponte para a consolidação de nossa experiência democrática, para alguns estudiosos, uma empresa de resultados duvidosos num país chamado Brasil.

 
Como assinalamos em editoriais anteriores, as divergências entre os ministros Herman Benajmin e Gilmar Mendes, também proporcionaram momentos de aprendizagem, como, por exemplo, quando se discutiu uma possível "banalização" do instrumento da cassação de mandatos em plena vigência de um regime democrático. Ao fim e ao cabo, sabe-se, na realidade, qual a verdadeira preocupação do ministro Gilmar Mendes. Como há controvérsias sobre a suposta "normalidade" democrática no país, não é completamente descabida a hipótese de mantermos um presidente sem a menor condição de governabilidade até as eleições de 2018. Afinal, não se arquiteta para golpear a democracia e, como num passe de mágica promovido pelas circunstâncias políticas, devolve-se o poder à soberania popular. Golpes de Estado são empresas complexas, que envolvem inúmeros interesses. Convém ficar atento às falas do presidente Michel Temer, ao afirmar categoricamente que fica até as eleições de 2018. Pode ser apenas uma tentativa sua de injetar otimismo aos seus ainda apoiadores,diante da inevitabilidade do desmonte do seu governo, mas...

 
Assim que começaram a desvelar a podridão do financiamento de campanhas e as imensas imoralidade por trás das construções de obras públicas no país, a Construtora Odebrecht tornou-se um emblema por vias tortuosas. Não por sua eficiência ou mesmo capacidade técnica dos seus engenheiros, mas por corromper agentes públicos, em todas as esferas de poder, através de um departamento organizado dentro da empresa, também conhecido por departamento de propina, criado com um grau de sofisticação inimaginável, apenas para cumprir o papel de institucionalizar essa prática. Disse bem, mais uma vez, o ministro Herman Benjamin, informando que Marcelo Odebrecht não herdou apenas uma construtora, mas, igualmente, a cultura da propina. Apenas no imbróglio da chapa Dilma-Temer, haveria uma estimativa de que a construtora tenha "despejado" neste duto, irregularmente, algo tem torno de R$ 150 milhões de reais. Reinou absoluta neste terreno, até surgirem as delações premiadas e as operações monitoradas da Polícia Federal envolvendo os irmãos Joesley e Wesley Batista, do Grupo J&F. 

 
Um fato surpreendente sobre essa questão da corrupção no país, revelada pelas delações mais recentes, é que confirma-se a tese do seu endemismo, ao se constatar, por exemplo, que mesmo durante as investigações - com alguns atores políticos já atrás das grades - o ritmo de corrupção na máquina pública permaneceu inalterado, apenas com um componente até certo ponto novo, como a compra do silêncio dos envolvidos, no sentido de que eles não abram o bico sobre os casos ainda sob suspeita ou investigações. Como está o passarinho na gaiola? já colocaram alpiste para ele? Essa frase foi atribuída pelos irmãos Joesley ao mais alto mandatário do país, numa possível alusão ao "tratamento" recebido pelo ex-deputado Eduardo Cunha, preso em Curitiba, no curso da Operação Lava Jato. É fogo, leitor. 

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