terça-feira, 13 de junho de 2017

Editorial: A autodesmoralização do PSDB





Até recentemente, o presidente Michel Temer(PMDB) fez uma visita relâmpago ao Palácio dos Bandeirantes para encontrar-se com o governador Geraldo Alckmin, do PSDB. Foi num desses momentos cruciais, no apogeu da crise que se abateu sobre o seu governo, quando a sua agenda se resumia às conversas com seus advogados e com a sua base de sustentação política no Legislativo, sob ameaça de uma debandada iminente. Desde quando estourou o escândalo da JBS que os tucanos - pelo menos parte deles - anunciaram que poderiam deixar a base de sustentação do Governo Temer, embora essa ameaça nunca tenha se concretizado, muito em razão, como observa o cientista político Michel Zaidan, em artigo publicado aqui no blog, da conveniência de seus ilustres integrantes - aliado ao fisiologismo da legenda - que se sobrepõe ao interesse público. O que está em jogo, afinal, nesta decisão?

 
Como afirmamos antes, Temer iria utilizar-se de todos os recursos disponíveis para manter o seu governo, pelo menos até o final, ou seja, dezembro de 2018.A frase "A caneta vai funcionar" não foi pronunciada por acaso. Ao contrário, pode ser traduzida como uma incomensurável disposição de satisfazer os desejos daqueles que decidirem continuar na base governista, como pode ser observado no dia de ontem, quando ele recebeu duas dezenas de governadores para um jantar, tendo como sobremesa os cofres do BNDES. Foi salvo pela última decisão do STE; articular-se junto ao Legislativo para barrar as investigações contra ele, impetradas pelo PGR-STF; negocia com os seus interlocutores da base aliada, prometendo mundos e fundos, como um possível apoio do PMDB a um candidato do PSDB nas eleições de 2018, além, claro, de amenizar a barra do senador Aécio Neves, hoje mais sujo do que pau de galinheiro, garantindo os votos do PMDB num conselho de ética sob medida para preservar o mandato do tucano. As pressões sobre o ministro Luiz Edson Fachin, do STF, também faz parte desse jogo, como uma cogitada convocação para uma sabatina na Câmara Federal, sem falar num suposto pedido de investigação sobre a sua vida,que seria realizado pela ABIN, de acordo com a revista Veja, formulado pelo Palácio do Planalto.

 
Esses movimentos dos tucanos consubstancia o hiato entre os grêmios partidários - pelo menos a maioria deles - e a sociedade brasileira, absolutamente refém de uma corrupção endêmica, de dirigentes corruptos, pegos com a mão na massa, mas salvo pelas conveniências e interesses comezinhos deste ou daquele grupo político. Os leitores precisavam ter ouvido a agenda de compromissos do PSDB, emitida em discurso proferido pelo senhor governador Geraldo Alckmin, um pouco antes da reunião da cúpula do partido: Estabilidade, reformas, empregos. Já se sabia que eles não abandonariam essa nau sem rumo. Os acordos para um possível apoio dos peemedebistas aos tucanos nas eleições de 2018 é algo acordado desde as tecituras em torno do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Acordos, agora, com maiores chances de serem mantidos nos momentos de crise institucional como este que estamos atravessando.

 
Curiosa essa engenharia política montada no país recentemente, traduzida como um golpe institucional. Fica cada vez mais evidente que um dos pressupostos mais consistentes a animá-la foi mesmo a perspectiva de estancar a sangria que poderia advir sobre a classe política, a partir do tsunami de denúncias e delações da Operação Lava Jato. Manobras escusas ali, manobras escusas aqui, todas com o propósito de poupar os atores políticos dos efeitos do combate à corrupção, notadamente no que tange às investigações desta operação, que envolve um percentual considerável de atores do nosso sistema político. Não é possível que possamos continuar com essa anomia, como disse o ministro Herman Benjamin, cumprindo o papel de coveiros de provas vivas, enterrando com elas um mínimo de decência na condução dos negócios públicos, assim como o que ainda resta de nossa incipiente experiência democrática, blindando gestores públicos de conduta duvidosa, tudo em nome do cumprimento de uma agenda extremamente danosa aos interesses dos trabalhadores.  Como observou um editorial da Folha de São Paulo, há, nesta atitude do PSDB, um misto de pragmatismo e medo, em razão de suas mais proeminentes figuras estarem enrascados nos rolos da Lava Jato. 

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