quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana em tópicos: Célia Sánchez, a flor mais autóctone da Revolução"








José Luiz Gomes



Cumpre aqui fazer um registro - mais um - acerca das enormes controvérsias sobre o número exato de guerrilheiros que embarcaram no iate Granma, assim como o número deles que sobreviveram ao naufrágio do iate já em território cubano. Certa vez, até alguém que se apresentava como agente da CIA andou nos corrigindo. Os agentes da CIA normalmente não se apresentam, mas, enfim... Os números que mais se aproximam da realidade dão conta de que 49 revolucionários embarcaram no México e apenas 15 deles sobreviveram ao tiroteio intenso infligido pelas tropas leais ao ditador Fulgêncio Batista, que os aguardavam previamente. Numa manobra com o propósito de desmobilizar o movimento insurgente, a ditadura divulgou a noticia de que Fidel Castro teria sido um dos que tombaram. Os dados que apresento é uma média dos melhores trabalhos que li a esse respeito. Mas, como afirmo, há controvérsias. acabei de ler um texto onde se diz que 79 futuros guerrilheiros embarcaram no México e apenas 12 deles sobreviveram. 

Um outro registro, este mais importante, é sobre o papel de Célia Sánchez na Revolução Cubana. Célia era filha de um médico de província e ingressou na militância política logo na juventude, integrando o Partido do Povo Cubano, ao qual também era filiado o então jovem estudante de direito da Universidade de Havana, Fidel Castro Ruz. O partido atuava numa linha institucional, nos limites pequeno-burguês. Fidel estava entre aqueles que defendiam que o partido tivesse uma atuação, de fato, mais popular, junto aos camponeses e movimentos sociais. Quando foi decretada uma ditadura militar no país, liderada pelo sargento Fulgêncio Batista, ele decidiu que era chegada a hora de pegar em armas para lutar contra o regime. Conforme já comentamos por aqui, a primeira grande ação dos insurgentes contra a ditadura militar foi o ataque ao Quartel de Moncada, que resultou na morte de dezenas deles, mas reservaria um grande simbologismo na luta contra a ditadura. O julgamento de Fidel Castro foi realizado num hospital onde estava internado, discretamente, exatamente para evitar a repercussão dos fatos. Como observava Fidel, era um grande feito a população cubana saber que existiam pessoas dispostas a pegarem em armas para derrubar a ditadura.

Célia Sánchez não estava nesta tentativa frustrada de tomar de assalto o Quartel de Moncada. Se o leitor, no entanto, verificar a estatística dos mortos, irá observar a presença de muitas mulheres entre os insurgentes. Célia foi uma das pessoas mais importantes em todo o processo revolucionário que culminou com a derrubada da ditadura cubana. Poderia ter ido ao México com Fidel, mas foi aconselhada a ficar em Cuba, onde desempenharia um papel estratégico na guerrilha urbana. Aliás, Célia, conhecida como Norma ou Aly, seria o elo de ligação entre a guerrilha urbana e a guerrilha rural que se instalaria na Sierra Maestra. Mesmo quando ela resolveu atuar como guerrilheira na Sierra Maestra, ainda assim continuou sendo o elo de ligação entre as guerrilhas, o que levou o aparato de segurança da ditadura a decidir assassiná-la, intenção que nunca materializou-se. 

Nas "horas vagas", quando não estava em batalha, Célia tornou-se uma espécie de memória da guerrilha, anotando tudo, guardando tudo, fotografando tudo. Dizia ela que, um dia, aquilo se tornaria muito importante. De fato, sim. Juntamente com os diários de Che Guevara, as anotações de Célia se constituiriam nos registros mais fidedignos da guerrilha instalada na Sierra Maestra. Acompanhava Fidel em tudo, tornou-se sua amiga íntima, possivelmente uma namorada, como sugere alguns. Logo após Célia, outras tantas mulheres se integrariam à guerrilha rural.Com a vitória da Revolução, Célia tornou-se uma heroína para o povo cubano. Vários logradouros públicos recebem o seu nome na ilha caribenha. São justas as homenagens àquela que foi a eterna "companheira" do líder Fidel Castro. 

Comenta-se que Célia gostava muito de cultivar flores. Em razão disso, Fidel a tratava como "A flor mais autóctone da Revolução". Um dos presidentes do Centro de Estudos Martianos que nos foge à memória - enfatizava que " Para medir quem foi esta nossa irmã, basta sublinhar que é impossível escrever a história de Fidel sem relacioná-la à vida de Célia Sánchez."


P.S.Do Contexto Político: Na web, só perdemos para a wikipedia. 


https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_Cubana

Revolução Cubana foi um movimento armado e guerrilheiro que culminou com a destituição do ditador Fulgencio Batista de Cuba no dia 1 de janeiro de ...
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Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana e tópicos: Célia Sánchez ...

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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Charge! Renato Aroeira via Facebook

Museu do Homem do Nordeste promove o I Seminário em Ecomuseus e Museus Comunitários

Muhne promove o I Seminário de Pesquisa em Ecomuseus e Museus Comunitários


Nos próximos dias 5 e 6 de dezembro, o Museu do Homem do Nordeste realiza o I Seminário de Pesquisa em Ecomuseus e Museus Comunitários que tem por objetivo reunir pesquisadores do campo da Museologia para que exponham seus estudos sobre a temática, tanto no que diz respeito às observações de campo quanto aos avanços nos diálogos conceituais transdisciplinares. 

Pesquisadores ligados a universidades federais ou estaduais apresentarão um painel atual de suas pesquisas e estarão reunidos para discutir a constituição do Observatório de Ecomuseus e Museus Comunitários do Brasil. Interessados podem se inscrever através do e-mail estudos.muhne@fundaj.gov.br ou pelo telefone (81) 3073-6338 ou 3073-6227

Entre os temas analisados durante o Seminário, serão apresentadas ações colaborativas e de curadoria compartilhada para o estabelecimento de parcerias que motivaram a realização de museus indígenas, como aponta a pesquisa de Marília Xavier Cury (USP); bem como o Movimento Tropeirista, suas origens e processos culturais, na região dos distritos de Cachoeira do Campo, Casa Branca, São Bartolomeu e arredores, nos séculos XVIII, XIX e XX, como indica a pesquisa de Yara Matos (UFOP).

Para a pesquisadora Camila Morais, da UFMG, “os processos animados por iniciativas comunitárias em memória e patrimônio cultural englobam diferentes perfis institucionais, entre os quais Ecomuseus, Museus de Território e Museus Comunitários, e nos trazem diferentes epistemologias, questionando práticas institucionais e disciplinares da Museologia”.

O Seminário, que aborda discussões atuais e prementes, se notabiliza por pautar a museologia por meio de experiências participativas e comunitárias, que podem ser encontradas em diversas práticas museais no Brasil e exterior, como indicou Marcelle Pereira (UNIR). “No entanto, ainda são poucos os estudos e trabalhos que tenham como objetivo analisar a trajetória destas práticas com o intuito de aferir seus impactos junto às comunidades e aos grupos sociais em que atuam. Conflitos internos e externos das práticas museais”, concluiu a pesquisadora.



Cherge!Laerte via Facebook

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Morte de Fidel Castro: Revolução Cubana em tópicos: Uma guerrilha na Sierra Maestra






José Luiz Gomes



Os 15 guerrilheiros que escaparam ao cerco imposto pelas forças leais ao ditador Fulgêncio Batista, entre eles, Fidel Castro, Raul Castro e Che Guevara, subiram as montanhas da Sierra Maestra para dar início a uma guerra de guerrilha que duraria pouco mais de 02 anos. A despeito das enormes dificuldades iniciais, os guerrilheiros liderados por Fidel encontrariam as condições necessárias para consolidar o projeto revolucionários na região. Um dos aspectos mais importantes foi o apoio dado pelos camponeses, que forneciam alimentos e até homens para se engajarem no movimento. De acordo com o cientista político Jorge Castañeda, que escreveu uma biografia sobre Ernesto Che Guevara, a região da Sierra Maestra era uma região onde se abrigavam velhos bandoleiros que haviam cumprido pena nas prisões cubanas. Alguns desses bandoleiros costumavam espalhar o terror  na região, daí se entender que os primeiros "justiçamentos" ou "acertos de contas" entre eles e a guerrilha - como costumava enfatizar Che - começaram ainda na Sierra Maestra. 

A guerra de guerrilha da Sierra Maestra revelaria grandes estrategistas militares entre os guerrilheiros, o que nos parece, a princípio, inusitado, uma vez que, a rigor, nenhum deles teria passado por treinamentos militares prolongados ou sistemáticos antes de subirem as serras. Sabia-se que Fidel tinha intimidades com armas e era um bom atirador. Mas, e Raul Castro? Che Guevara? Camilo Cienfuegos?O fato concreto é que eles demonstrariam um a destreza militar capaz de causar danos consideráveis às tropas enviadas à Sierra pelo ditador Fulgêncio Batista, que organizou várias incursões militares ao local. Fidel confiava a Guevara as missões mais importantes da guerrilha, até porque ele mesmo se oferecia para executá-las. Isolado naquelas montanhas frias, seus crônicos problemas de asma se agravavam, mas a resiliência, a tenacidade e o idealismo eram maiores. 

Superada as primeiras dificuldades, a guerrilha ampliou sua capilaridade política e social junto à população da região, desenvolvendo ações que, posteriormente, iriam ser a marca do governo revolucionário, como os programas de alfabetização da população adulta, os cuidados com a saúde e um incipiente programa de reforma agrária. Aliás, cumpre o registro de informar que uma das primeiras medidas tomadas por Fidel Castro depois do êxito da luta de guerrilha foi informar a um dos seus irmãos que começaria a reforma agrária cubana pelas terras da família. Todo esse trabalho social foi criando um elo forte na população local, que passou a simpatizar com aquele "experimento socialista". Se é isso que é socialismo, então nós somos socialistas.

Celia Sánchez era a grande interlocutora de Fidel Castro junto aos movimentos de guerrilha urbana que atuavam na capital. Aliás, Celia Sánchez foi uma das pessoas mais estratégicas em todo o processo, uma vez que recrutava voluntários e abastecia a guerrilha com alimentos, armas, aparelhos de comunicação e medicamentos. Com a fragilização das forças da ditadura, foram se intensificando os encontros entre Fidel Castro e líderes da guerrilha urbana. Fidel fazia acordos no sentido de costurar a liderança do movimento. Nesta rodada do jogo, naturalmente, começa a entrar no âmbito dessas negociações aspectos mais relacionados ao pragmatismo político, o que deixava o idealista Che Guevara bastante preocupado. Não foram poucas as conversas mantidas entre ambos logo após esses diálogos de Fidel com os representantes da guerrilha urbana. 

Convém frisar que, até então, Fidel Castro nunca se dissera comunista. Do grupo, quem assumia essa posição abertamente era Che Guevara e o irmão Raul Castro. Che, aliás, era um aplicado estudioso da economia socialista, estudando este assunto nos momentos em que a luta nas montanhas permitia. Como se sabe, embora com uma profunda sensibilidade social aos problemas enfrentados pela população cubana, a conversão de Fidel ao socialismo viria um pouco depois, quando não lhes restou outra alternativa diante das sanções aplicadas à ilha pela governo norte-americano, como o criminoso embargo econômico que durou décadas, estrangulando a economia do país caribenho. 

P.S.:Do Contexto Político: Convém informar aqui que, na realidade, os guerrilheiros teriam recebido treinamento militar, ainda no México, antes de embarcarem no iate Granma, de volta à ilha. Mesmo assim, teria sido um processo açodado, em meio à vigilância constante das órgãos de informação inteligência dos Estados Unidos.  


domingo, 27 de novembro de 2016

"Projeto de vida" de István Mészaros será publicado no Brasil a partir de 2017


Filósofo húngaro dedicou os últimos quinze anos à trilogia “Para além do Leviatã: crítica do Estado”, seu projeto mais político e radical
Divulgação
O filósofo húngaro István Mészáros (Foto: divulgação)
Redação
Aos 85 anos, o filósofo István Mészáros, considerado um dos principais pensadores da esquerda contemporânea, anunciou a publicação de sua obra mais ambiciosa e abrangente, Para além do Leviatã: crítica do Estado. O livro, ao qual Mészáros dedicou seus últimos quinze anos de pesquisa e escrita, é um extenso tratado de mais de mil páginas sobre o Estado, que abrange desde sua formação arcaica no despotismo oriental até a constituição moderna do Estado liberal.
Leviatã foi um conceito utilizado pelo teórico político Thomas Hobbes para denominar um contrato social, segundo o qual o sujeito abriria mão de sua liberdade em nome de um Estado protetor e detentor do poder e da coesão social. O termo é recuperado pelo filósofo húngaro para apontar como qualquer formação de um Estado, de um poder institucionalizado, é em si um leviatã. E, seguindo a tradição marxista da qual faz parte, delineia as possibilidade de dissolução desse Estado.
Para além do Leviatã: crítica do Estado será publicado no Brasil pela Boitempo. Serão três volumes: O desafio histórico, previsto para o segundo semestre de 2017; A dura realidade, para 2018; e A alternativa necessária, para 2019.  Fazendo uma análise crítica de diversos pensadores do Estado, Mészáros não abre mão de Sartre [reveja aqui texto de Caio Liudvik sobre a relação do filósofo húngaro e o autor de O ser e o nada], utilizando o conceito de liberdade do pensador francês para refletir a prática marxista em uma época que o capitalismo ameaça toda a vida.
Nascido em Budapeste em 1930, o filósofo húngaro tem diversos estudos sobre grandes pensadores marxistas, como Sartre, Lukács e o próprio Marx. Atualmente é professor na Universidade de Sussex, Inglaterra. Grande parte de sua obra já foi publicada no Brasil pela Boitempo, que conta com 15 títulos de Mészáros em seu catálogo. Para além do Leviatã: crítica do Estado, considerado o “projeto de vida” do autor, é um de seus estudos mais políticos e radicais, recuperando um tema caro ao marxismo tradicional: a atenção ao Estado leviatã.

(Publicado originalmente no site da revista Cult)

    Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana em tópicos - "A História Me Absolverá".







    José Luiz Gomes


    Após a fracassada tentativa militar de tomar de assalto o Quartel de Moncada, os prisioneiros sobreviventes foram submetidos a julgamento nos tribunais da ditadura do sargento Fulgêncio Batista. Assim como a família Somoza na Nicarágua, Batista era uma espécie de filho da puta, mas nosso aliado, como costuma enfatizar os presidentes norte-americanos ao se referirem aos seus algozes aliados no continente americano. Enquanto boa parte da população cubana não tinha o que comer, ele costumava dar festas faraônicas em sua residência para receber os comparsas da ditadura. Numa dessas festas - a do aniversário de uma de suas filhas - encheu uma piscina de champanhe. Gostava de ostentações.

    O julgamento do líder Fidel Castro e de outros revolucionários que empreenderam a tentativa de assalto ao Quartel de Moncada foi um desses julgamento onde já se sabia - aprioristicamente - qual seria o resultado. Aliás, esses julgamentos estão se tornando rotina. Já não mais existe aquela premissa da "incerteza", onde fica caracterizado o respeito ao contraditório pelos juízes. Fidel foi condenado a 15 anos de prisão. Cumpriu um e exilou-se no México, agraciado por uma anistia. Fidel assumiu a sua própria defesa, proferindo um discurso famoso, que depois se tornaria no livro "A História Me Absolverá". Vazado clandestinamente de Cuba, o livro virou um best-seller no ocidente. 

    Em sua fase de exílio no México, Castro dedicou-se a reaglutinar as suas forças revolucionárias com o propósito de voltar à Ilha e iniciar uma guerrilha rural. Articulou-se dentro e fora da Ilha, mantendo contatos com os grupos guerrilheiros urbanos já formados e em atuação, tendo como um dos canais privilegiados aquela que seria a sua "eterna companheira" Celia Sánchez, que arregimentava voluntários e armas para preparar seu regresso à Ilha. No México, conseguiu reunir um contingente de 49 pessoas dispostas a iniciar um processo revolucionário rural em Cuba, a partir das serras da Sierra Maestra. Entre esses voluntários estavam o próprio irmão, Raul Castro, e o médico Ernesto Che Guevara, que deveria acompanhar a expedição, a princípio, como médico e não como guerrilheiro.

    Che teria feito várias ponderações ao novo amigo Fidel Castro, inclusive acerca das precárias condições em que estavam sendo preparada aquela luta armada. Ambos tiveram um longo diálogo noite a dentro. Impetuoso e convincente, Fidel acabou persuadindo Che a integrar o grupo, sob a condição de respeitar o seu projeto de uma revolução continental na América Latina, o que o teria levado, anos depois do êxito da Revolução Cubana, a iniciar um outro foco revolucionário na Bolívia, onde foi morto. Desde os episódios da tentativa de assalto ao Quartel de Moncada, a CIA acompanhava todos os passos de Fidel Castro e do seu grupo, informando às forças do ditador Fulgêncio Batista todos os seus movimentos. Com muita antecedência, eles sabiam dos planos dos revolucionários de regressarem à Ilha. 

    Aparentemente, quase nada deu muito certo neste retorno, exceto o grande êxito político e militar da guerrilha que, em pouco mais de 02 anos de batalha, chegou em triunfo a Havana, exaustivamente festejada pelo povo cubano. Na realidade, não houve um desembarque, mas um "encalhe" do iate Granma, que transportava os revolucionários. Recepcionados por um forte aparato militar de forças leais ao ditador Fulgêncio Batista, dos 49 revolucionários, apenas 15 sobreviveram, entre eles o próprio Fidel, Raul e Che. O apoio de membros da guerrilha urbana, liderados por Celia Sánchez, não tornou-se possível, posto que o Granma nunca chegou ao destino combinado. Comenta-se que, após a fuga intensa pelos canaviais, os guerrilheiros acabaram se reagrupando e um deles teria respondido a Fidel que restaram apenas 15 homens. Ele teria dito: Os dias da ditadura estão contados! 

    sábado, 26 de novembro de 2016

    Carlos Puebla - Y en eso llegó Fidel

    Charge!Aroeira via Facebook

    Morte de Fidel Castro: A Revolução Cubana em tópicos: O ataque ao Quartel de Moncada.





    José Luiz Gomes


    Hoje, dia 26 de novembro de 2016, foi anunciada a morte do revolucionário cubano Fidel Castro Ruz, que presidiu o país durante décadas depois do êxito da Revolução Cubana por ele liderada. Ficamos aqui a pensar sobre como poderíamos homenageá-lo. Um editorial? um desses longos artigos, assim como os seus memoráveis discursos na Praça da Revolução? Tudo seria bem vindo, desde de que enaltecêssemos a sua condição, antes de qualquer coisa, de um grande revolucionário. Fidel mexeu com o tabuleiro das relações políticas internacionais, em plena Guerra Fria, onde o mundo era um palco de disputas entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética. Sem qualquer sombra de dúvidas, durante décadas, foi uma das personalidades políticas mais importantes, sobretudo quando tomamos como referência o continente latino-americano e o movimento dos não-alinhados. 

    Sua luta inspirou muitos movimentos revolucionários no continente americano, assim como, já como presidente de Cuba, apoiou diversos movimentos de libertação de países africanos, inclusive com o envio de tropas. A Revolução Cubana, na realidade, começou bem antes da luta de Fidel Castro. A Ilha tem um longo histórico de exploração colonialista, passando de mãos em mãos entre as potências ocidentais hegemônicas. Certamente precisaríamos de longas conversas para remontar todo esse processo. Já contamos por aqui como foi a "Campanha da Bolívia", um foco revolucionário naquele país, liderado pelo "companheiro" Che Guevara, que acabou sendo executado depois de capturado. Neste caso, como homenagem ao "comandante", optamos por recontar alguns fatos importantes da Revolução Cubana a partir do famoso ataque ao Quartel de Moncada.

    Em 26 de Julho de 1953, o Movimento 26 de Julho tomava o Quartel de Moncada.Fidel Castro tinha por objetivo entrar no quartel e pegar as armas que lá se encontravam para distribuir entre a população e iniciar uma ação para destituir o ditador Fulgência Batista.Por ter dado início(?) à Revolução, a data do assalto ao quartel Moncada é conhecida como o Dia da Rebeldia Nacional, um feriado estipulado pelo governo cubano para lembrar uma das primeiras tentativas de acabar com a ditadura de Fulgêncio Batista.Todos sabem que, do ponto de vista estritamente militar, a investida resultou num grande fracasso, com dezenas de mortos e feridos entre os insurgentes, inclusive um número expressivo de mulheres. 

    O fracasso militar, no entanto, não impediu que a população cubana, conforme assinalou o comandante Fidel, tomasse conhecimento da disposição de alguns deles em pegarem em armas para derrubar a ditadura sanguinária que sufocava a ilha caribenha, implantada com o apoio dos Estados Unidos. Exilado no México, Fidel Castro reorganizaria os revolucionários, que retornaram à ilha, em condições bastante adversas, e iniciaram uma guerra de guerrilha, notadamente concentrada nas montanhas da Sierra Maestra, que, em 1959, depois de alguns anos de duras batalhas, esmagaria a ditadura de Fulgêncio Batista e devolveria a soberania e a dignidade ao povo cubano. 


    P.S.Do Contexto Político: Data desta época, salvo melhor juízo, uma das primeiras tentativas de assassinar o jovem líder cubano Fidel Castro Ruz. Segundo relatos, o militar encarregado de executar o serviço teria estudado com ele na Universidade de Havana e, em razão disso, teria desistido do intento. 

    Charge!Aroeira via Facebook

    sexta-feira, 25 de novembro de 2016

    "O Brasil é incapaz de refletir sobre seu passado", diz Julian Fuks


    Vencedor do Jabuti na categoria Ficção do Ano com o livro “A resistência”, o escritor fala à CULT sobre as origens autobiográficas de seu romance premiado
    O escritor Julián Fuks, vencedor do Jabuti na categoria Ficção do Ano com o romance "A resistência" (Foto: Paula Pires)
    O escritor Julián Fuks, que venceu o Jabuti na categoria Ficção do Ano com o romance “A resistência” (Foto: Paula Pires)
    Paula Pires
    Aos 35 anos, o brasileiro de família e raízes argentinas Julián Fuks recebeu, nesta quinta (24), o prêmio Jabuti na categoria Ficção do Ano com o livro A resistência, de 2015. Em suas narrativas, o autor revela a descoberta constante da escrita: um processo entre a criação e o relato, por vezes poético, de suas próprias sensações, pensamentos, análises e vivências ao longo do ato de resistência que é escrever.
    Doutor em Literatura pela USP, Fuks não escreve um romance como costumamos entendê-lo, mas o desafia a se apresentar em outras facetas, com situações menos óbvias, sem personagens caricatos. É que, para ele, o romance é um território híbrido, sem fronteiras demarcadas com outros gêneros. Fuks está sempre em busca do romance possível.
    No premiado A resistência, o autor traz um tema delicado e complexo que se mescla com sua própria história: o processo de adoção do irmão em meio à fuga de seus pais, perseguidos na ditadura militar argentina, a chegada ao Brasil e a decisão de permanecer no país. Em entrevista à CULT, ele fala sobre as raízes de seu romance premiado.
    CULT – Em que medida resistir é existir ou vice-versa?
    Julián Fuks – O romance, a princípio, se chamava “O irmão possível”, que colocava mais centralidade na questão da adoção. Só que a editora tinha problemas com esse título, pelo fato de o Chico Buarque ter publicado logo antes O irmão alemão, meu livro poderia ter uma cara de paródia do livro do Chico. E em um dado momento “A resistência” surgiu e me pareceu complexo o bastante, porque há muitas existências ao longo do livro. Pode não estar mencionada assim. A resistência dos pais à ditadura militar é a mais imediata, mas há a resistência do irmão ao convívio familiar, a resistência do narrador ao contar essa história. Então tem uma série de resistências atravessando o livro e é aproximando dessa noção mesmo: de resistir como um ato simples de existência, existir e resistir como duas coisas muito relacionadas. Hoje está se fazendo muito esse trocadilho com o reexistir: voltar a existir. Resistir seria uma forma de voltar a existir. Gosto, especialmente, do que a palavra tem de ambivalente: resistência como algo negativo, como uma recusa a alcançar algo ou, pelo contrário, como um ato de força, de posicionamento diante de uma situação que exige uma tomada de posição. Eu gosto de pensar a literatura como capaz de fazer essa transição: do sentido mais negativo de resistência para o sentido mais positivo. Por meio da escrita a gente pode transformar uma resistência na outra.
    Além de tentar encontrar algo das raízes familiares do seu irmão, você também tenta se reencontrar ao longo do livro. Pode falar um pouco sobre essa busca?
    Na verdade a minha relação com a Argentina sempre foi muito ambivalente e complicada. Eu sempre tive muita identificação com a Argentina e procurei ao máximo me aproximar do país, mas ao mesmo tempo encontrava limites nessa cumplicidade.
    Que limites?
    De não me perceber plenamente argentino sem nunca me sentir totalmente brasileiro. Coloquei isso no livro: o exílio é algo que se herda.  Se o filho nasce no exílio dos pais é também um exilado. E a situação do exilado, e também do imigrante, é do não-lugar, de um não pertencimento a nenhum lugar. E eu senti isso muito forte. É sempre muito forte ir pra Argentina, passar o tempo lá. Porque é esse processo de identificação constante e também de afastamento. Eu já tinha escrito sobre a busca identitária deste mesmo narrador, o Sebastián, por suas próprias origens, por seu passado, seu passado familiar. E, em parte, eu achava que isso estava resolvido naquele livro. Eu acreditava que eu não iria voltar a escrever sobre a Argentina. Mas, de repente, eu me vi falando do meu irmão e para falar do meu irmão eu precisava, de novo, voltar a falar da Argentina e falar dos meus pais. À medida que eu reconstitui a história deles, eu reconstitui a minha própria. Então, estava envolto de novo nas mesmas questões. Percebi que são coisas que não se superam tão facilmente. Que eu não deixo para trás. E também não penso que, com o livro, eu vá resolver aquilo que não estava resolvido, que vou superar essa ambivalência. Ela continua, ela permanece, ela tem certa resiliência.
    A adoção é um tema marcante na sua obra e a adoção aqui também pode significar ser recebido, acolhido, querido. Você se sente adotado pelo Brasil ou foi você quem adotou o país?
    Hoje eu me sinto mais brasileiro do que antes. O Brasil adotou muito generosamente a minha família inteira. Meus pais foram muito bem acolhidos aqui, isso foi uma das coisas mais marcantes da vida deles. Eles vieram de passagem, não ficariam no Brasil, estavam indecisos. Um queria ir para o México, o outro para a Espanha. Aqui era simplesmente uma escala. E foram muito bem acolhidos, mesmo no contexto de ditadura militar. Aqui, eles corriam riscos, estavam sendo perseguidos. Mas, ainda assim, há outra sociedade para além da “oficial” que pode ser muito acolhedora. Há sérios problemas de governo, de autoridade e de desempenho dessa autoridade no Brasil e, no entanto, existe toda uma vitalidade pra além disso, uma candura e um valor no que há nesse país. Acho que meus pais se sentiram muito bem. Quando a ditadura acabou, eles demoraram para voltar à Argentina, e essa é uma parte que não está nem no livro: eles não quiseram voltar de imediato para a Argentina. Eles ficaram aqui até 1988. Voltamos para morar lá, mas não conseguimos, não nos readaptamos. Ficamos dois anos somente. Naquele momento, a Argentina era um país menos interessante, menos acolhedor do que o Brasil.
    Por falar em ditadura na Argentina e no Brasil, você percebe uma diferença de posição, hoje, entre argentinos e brasileiros na relação com esse passado tão recente?
    Há muito que se apreciar no exercício da memória que se faz na Argentina. Esse contato com o passado é mais intenso, mais profundo e mais sofisticado. O Brasil é incapaz de refletir sobre seu passado. Ao contrário, aqui, tenta-se superar aquilo que passou. É curioso, o povo brasileiro sempre se mostrou pouco combativo ou menos combativo do que os povos desses países vizinhos. Na Argentina, a resistência à ditadura militar foi mais forte talvez porque o regime tenha sido mais sanguinário, assim como no Chile. Acho que aqui houve uma cumplicidade, uma leniência grande de parte importante da população com a ditadura. Sinto que nunca se fez devidamente a crítica àqueles tempos, aos autoritarismos, às violências, às repressões. Com o passar do tempo, a balança política pesa para o outro lado e a gente não elabora construtivamente esse passado. Mas quando a balança volta para o outro lado e pende mais para a direita, os autoritarismos afloram. O que a gente vê hoje no Brasil é um recrudescimento desse sentimento autoritário de trinta anos atrás. Faltou a crítica àquele momento. Recentemente, invadiram o Congresso – um grupo pequeno, por sorte, mas um grupo significativo – para pedir a volta dos militares. Que falta de rigor histórico, de conhecimento do passado há para que pessoas peçam isso? Volto a pensar que isso tenha a ver com o modo como se encerrou a ditadura aqui, com uma suposta reconciliação nacional, marcada pela anistia. Essa é uma falsa conciliação, porque os crimes que permaneceram impunes foram aqueles cometidos por apoiadores do regime. Essa reconciliação trouxe a ideia de que o Brasil precisava de uma pacificação geral, sem julgar os erros do passado. “Vamos passar agora a uma tranquilidade democrática”. Só que isso não funciona justamente porque as pessoas precisam refletir criticamente o processo histórico que se deu até aquele momento, para pensar que passos dar dali para frente. Com essa condição conciliatória, os professores de história não tiveram possibilidade de fazer a crítica severa que a ditadura merecia.
    Para você, o que tornou A resistência o livro vencedor do prêmio Jabuti nas categorias Romance e Ficção do ano?
    Desde o início os leitores tiveram uma relação diferente com esse livro. Talvez pelo aspecto ambíguo que ele cria, de você não saber ao certo se está lendo uma ficção ou algo autobiográfico. Em comparação com meus livros anteriores, há um envolvimento do leitor com a obra que é de outra natureza, e eu mesmo senti um vínculo mais forte com o leitor desta vez, que vinham me procurar para comentar as sensações tiveram ao lê-lo. E críticos e jurados são fundamentalmente leitores. Se eles se deixam tocar da mesma maneira, também fazem uma apreciação – de outra ordem – estética. Mas eu não acho que as duas coisas estejam separadas: o sentimento que o livro provoca e a sensação estética que ele possibilita. Então, as duas coisas devem estar presentes na avaliação do júri.
    Você tem consciência de que é um bom escritor e de que o seu livro ganharia o prêmio?
    Eu me esforço bastante. Todo escritor em alguma medida tem algo de crítico literário, nem que seja crítico da própria obra. Eu dedico um olhar crítico à minha própria escrita e não saio de uma frase, de um parágrafo e de uma página até ficar plenamente satisfeito com ela. Então, de fato, ao terminar esse livro, eu estava, em alguma medida, contente com o que eu tinha alcançado. A minha relação é ambígua com o livro: algumas vezes eu o encaro literariamente e em outras eu o encaro como parte da minha intimidade. Eu não consigo enxergar plenamente como ele é ou como um leitor qualquer enxerga. Talvez nenhum autor consiga. Em termos de prêmio, eu sei que essas coisas são muito imprevisíveis. Já fui três vezes finalista do Jabuti, em nenhuma delas eu havia ganhado. Parte de mim tinha vontade que isso acontecesse. Como o que eu escrevia estava sendo valorizado, eu sentia que algum dia esse reconhecimento por meio do prêmio aconteceria, mas não necessariamente pensava que seria com esse livro. Pelo contrário, À procura do romance, um livro que tinha sido escrito de uma forma muito mais trabalhosa, é mais complexo que A resistência. E eu achava que ele teria uma apreciação critica maior do que teve. Neste, eu estava mais relaxado, tinha menos expectativa que ganhasse o prêmio. E, de repente, aconteceu. Foi bom.
    Paula Pires é jornalista e mestranda em Comunicação e Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP).

    Editorial: Geddel cai...de podre!


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    A grande verdade é que estamos metidos numa enrascada política de dimensões gigantescas. Se, e somente se - o se é bastante complicado como hipótese - tivéssemos uma elite mais consequente e um sistema político composto por homens com um mínimo de espírito público, certamente teríamos construído um consenso em torno do respeito às regras do jogo democrático e de uma governabilidade responsável e responsiva no sentido de superarmos a grave crise econômica e os impasses políticos surgidos logo no início do Governo Dilma Rousseff. Mas, os "grandes" interesses em jogo não permitiram a construção desse consenso, que poderia nos poupar desse trauma que estamos vivendo, com o agravamento dos problemas econômicos e a "sujeira" governamental que acompanhamos todos os dias pelos jornais, por trás desse governo que se propunha restaurador. Hoje, tomamos conhecimento desses fatos até mesmo por aqueles jornais que se alinharam a essas urdiduras de caráter pouco republicanas. (...)

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    Le Monde: Mais de 1.500 comunidades quilombolas esperam por suas terras


    Em seu balanço anual, a Comissão Pró-Índio divulgou a evolução dos processos de titulação das terras quilombolas. Em 2016, apenas uma terra quilombola foi titulada até o momento
    por Carolina Bellinger, Otávio Penteado, Lúcia Andrade


    Longos 13 anos. É o tempo que as 387 famílias quilombolas de Brejo dos Crioulos, em Minas Gerais, aguardam pela conclusão do processo de titulação de suas terras no Incra. No Pará, em Oriximiná, o processo de regularização da terra Alto Trombetas, onde vivem 182 famílias quilombolas, se arrasta por 12 anos. Já na Paraíba, as 39 famílias quilombolas de Serra do Talhado esperam há 11 anos que o Incra finalize o processo de regularização de suas terras.
    Infelizmente, essa é a realidade de muitas comunidades quilombolas pelo Brasil. Segundo cálculos da Comissão Pró-Índio, 467 processos de terras quilombolas tramitam pelo Incra há 10 anos ou mais sem conclusão. Ao lado dos processos mais antigos, outros mais recentes se somam, chegando a um total de 1.525 processos abertos atualmente no órgão federal.
    2016 vem se mostrando mais um ano de poucos avanços na regularização das terras quilombolas com apenas uma titulação até o momento. Após aguardar nove anos pela tramitação de seu processo no Incra, as 89 famílias quilombolas da comunidade Tabacaria recebem hoje (20/11) título de propriedade referente a 399 hectares dos 410 hectares reconhecidos e declarados como pertencente a comunidade.
    Já no âmbito dos governos estaduais não se registra ainda nenhuma titulação esse ano. Os governos estaduais são os responsáveis pela titulação de grande parte das 165 terras quilombolas tituladas no Brasil. Foram 131 titulações realizadas pelos estados da Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pará, Piauí, São Paulo e Rio de Janeiro. Da lista, os estados do Maranhão, com 52 terras, e do Pará, com 50, se destacam. Porém, o estado do norte do país, pioneiro na regularização de terras quilombolas, diminuiu consideravelmente o ritmo de titulações nos últimos anos.
    Evolução Processos no Incra
    As publicações em 2016 seguem a média dos anos anteriores mantendo-se bastante aquém da demanda. Do total de 1.525 processos no Incra, somente 37 tiveram avanços em 2016 com a emissão de Concessões de Direito Real de Uso (3) e publicações (5 decretos de desapropriação, 19 portarias de reconhecimento e 10 relatórios de identificação).
    Os obstáculos para a concretização das titulações são muitos e diversos. A titulação das terras quilombolas envolve, em muitos casos, contrariar interesses de setores do agronegócio e mesmo do governo. O orçamento do Incra para encaminhar os processos vem sendo reduzido a cada ano - em 2016, o Incra contou com um orçamento 73% inferior ao de 2015. E o Serviço Quilombola, embora tenha crescido e se consolidado nos últimos anos, ainda é insuficiente para dar conta da enorme demanda.

    PLACAR 2016 (20/11/2016)
    TÍTULOS EMITIDOS
    1 terra titulada – 1 comunidade beneficiada.
    PUBLICAÇÕES
    Concessão de Direito Real de Uso: 03 terras - 3 comunidades beneficiadas
    Decreto de desapropriação: 5 decretos – 5 comunidades beneficiadas
    Portaria de Reconhecimento: 19 portarias – 19 comunidades beneficiadas
    Relatório de Identificação (RTID): 10 RTIDs – 11 comunidades beneficiadas


    Governo Temer
    O governo Temer transferiu do extinto Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário para a Casa Civil, a competência de delimitação das terras dos remanescentes das comunidades dos quilombos. O Incra – agora vinculado à Casa Civil - continua como o órgão responsável por conduzir os processos de regularização das terras quilombolas. Porém, tal mudança parece indicar que o andamento dos processos de titulação será ainda mais influenciado por decisões políticas.
    A previsão orçamentária do governo Temer para 2017 sinaliza ainda maiores dificuldades para a execução da política de regularização das terras quilombolas. A proposta encaminhada ao Congresso estabelece uma redução de 50% do orçamento do Incra para a titulação de terras quilombolas em comparação com 2016. A proposta prevê 4,1 milhões para a política de titulação de terras quilombolas, ante aos 8 milhões deste ano.
    O cenário de baixa efetividade dos direitos dos quilombolas, portanto, tende a piorar. Até hoje, quase 30 anos após a Constituição garantir o direito dos quilombolas aos seus territórios, o governo federal titulou somente 37 terras sendo que 20 delas apenas parcialmente.
    Assim, 92,5% das 214.000 famílias quilombolas que a SEPPIR estima existirem no Brasil permanecem na insegurança e vulneráveis às disputas e conflitos agrários enquanto aguardam a regularização de suas terras.
    Monitoramento dos Direitos Territoriais
    A Comissão Pró-Índio de São Paulo monitora, sistematiza e divulga dados relacionados aos direitos territoriais das comunidades quilombolas desde 2004. Os resultados da pesquisa são disponibilizados aqui.
    É possível acessar os balanços mensais acerca da efetivação desse direito através desse link.

    Carolina Bellinger, Otávio Penteado, Lúcia Andrade
    Carolina Bellinger é assessora de Coordenação da Comissão Pró-Índio de São Paulo,Otávio Penteado é assessor de programa da Comissão Pró-Índio de São Paulo e Lúcia Andrade é coordenadora executiva da Comissão Pró-Índio de São Paulo


    21 de Novembro de 2016
    Palavras chave: terrasquilombosquilombolascomunidadesterritóriofundiária

    quinta-feira, 24 de novembro de 2016

    Editorial: A queda de braços entre a ministra Carmem Lúcia e Renan Calheiros, o moralista.


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    Em duas ocasiões, o cientista político Michel Zaidan Filho, em artigos publicados aqui no blog, ironizou algumas atitudes tomadas pelo senador Renan Calheiros, Presidente do Senado Federal. Numa dessas ocasiões, ele fez referências aos famosos implantes de cabelos do senador - realizados aqui no Recife - que, segundo informou-se depois - pelo menos as viagens de deslocamento - poderiam ter sido custeados pelo erário. Nesta ocasião, o cientista político usou a expressão: até a sua cabeleira é falsa. Num outro momento, este até mais delicado, dizia respeito à suposta "indignação" do senador quando ocorreram aqueles episódios entre a Polícia Federa e a Polícia do Senado Federal, quando ele invocou a questão do "abuso de autoridade", na percepção correta do professor bastante "relativo", uma vez que a violação de direitos passou a ser uma rotina no país e o senador, como presidente da "Câmara Alta", manteve-se omisso. 

    Mas, as contradições do senhor Renan Calheiros parecem não parar por aí. Ele agora resolveu posar de paladino da moralidade, uma espécie de ombudsman da república, envolvido numa cruzada legal para criar uma legislação que coíba o abuso de autoridade. Na realidade, trata-se de algo bem mais expansivo que isso, ou seja, o que se pretende, na realidade, é  tolher a capacidade de ação dos órgãos de repressão aos crimes de colarinho branco, preferencialmente anistiando alguns gatunos envolvidos na Operação Lava Jato. Naturalmente, aqueles que estiveram articulados na engrenagem do golpe institucional que afastou a presidente Dilma Rousseff do poder. Se se tratasse apenas de uma legislação que punisse com rigor o abuso de autoridade, aí sim, pontualmente, ele até poderia ter razão. Na realidade, desde de sempre, estamos lidando com um governo de "bichados". Renan responde a 12 processos e o senador Romero Jucá, que é o líder do governo naquela Casa Legislativa, a 07 processos no STF.(...) 

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    Charge!Aroeira via Facebook

    quarta-feira, 23 de novembro de 2016

    Editorial: Fair Play Again. E agora, governador?

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    O blog vem recebendo alguns e-mails solicitando que publiquemos, na íntegra, o editorial que trata do pedido de demissão do ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero. A quem solicitou, estamos encaminhando sem nenhum problema, mas nos reservamos ao direito de respeitar a política de permitir o acesso integral de alguns conteúdos apenas aos assinantes. Um amigo nosso, acaba de ser censurado pela rede Facebook, segundo ele, a partir de uma representação do Palácio do Planalto. Os tempos são bicudos, como costumamos enfatizar. Mesmo com os apartes legais das intervenções dos advogados do ex-presidente Lula, durante uma audiência da Lava Jato, aquele juiz lá do Paraná ficou nervoso e mandou cortar o microfone de um deles. O legal tornou-se "inconveniente" nesses tempos de insegurança jurídica. 

    Assim como temos acompanhado a repercussão de nossas crônicas pelas web e redes sociais, passamos a pesquisar, igualmente, a repercussão dos editoriais. Este editorial específico, ficou apenas abaixo do próprio site do Ministério da Cultura, o que muito nos felicita, em razão do número expressivo de acessos. Talvez em razão de nossa cultura patrimonialista, os gestores públicos não lidam muito bem com as cobranças republicanas dos cidadãos, tão pouco dão bons exemplos, permitindo que determinados atores políticos ocupem posições relevantes, mesmo com a ficha mais suja do que pau de galinheiro.(...) 

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    A História não nos absolverá

    O futuro olhar dos historiadores depende, em grande parte, da luta política. Então, lá vai o meu conselho: caro amigo, não espere o julgamento da história.


    André Roberto de A. Machado
    reprodução
    Em outubro de 1953, um Fidel Castro, jovem e ainda sem a inseparável barba, iniciava a sua autodefesa. O que estava em questão era a tentativa de assalto ao Quartel Moncada, a primeira ação espetacular em que o comandante lideraria os cubanos na tentativa de derrubar o regime do ditador Fulgêncio Batista. Nada poderia indicar que aquela fala se tornaria célebre, transformada em livro com traduções em diversas partes do mundo. Afinal, o cenário era surreal: Castro fazia a sua defesa em um hospital em que estava internado, artimanha do regime para reduzir a repercussão do processo. Também não fazia uma autodefesa por se imaginar genial, mas porque o acesso aos advogados era dificultado pelo governo. A defesa é um texto de mais de setenta páginas, para não desmentir a fama dos discursos intermináveis de Fidel, que pode ser encontrada hoje em livros ou mesmos em cópias integrais na internet. Não há dúvida que o que chama a atenção no texto é a firmeza do jovem advogado que, em uma situação totalmente desfavorável, acua os seus julgadores. O maior símbolo disso é o desfecho intimidador da defesa: “Condenem-me, não importa. A História me absolverá”.

    Os argumentos e a lógica da defesa de Fidel Castro buscam a história como lastro a todo momento. José Marti, um dos mártires da luta pela independência cubana é citado, aliás como ainda hoje é comum entre os governantes da ilha. Na defesa de Fidel, é clara a tentativa de transformar o assalto ao quartel Moncada em uma retomada dos ideias de Marti. Ainda mais do que isso, Castro põe a sua luta como um processo progressivo da humanidade em busca da liberdade. Assim, retoma o que seria seu início mais imediato nas Revoluções Inglesas, passando pela queda do Absolutismo e nas independências americanas. Por um lado, fiava-se em valores que descrevia como universais e imutáveis. Buscava exemplos até na Antiguidade, para demonstrar que o direito à rebelião contra a tirania era reconhecido nessas sociedades. Por outro lado, é nítido que Castro compartilhava da visão de uma história em contínuo progresso. Dentro dessa lógica, defendia estar lutando pelos valores mais avançados que seriam historicamente necessários sob o risco de um retrocesso. Na sua ótica, isso tornava a sua luta justa. 

    Por isso, para Castro, não importava a opinião dos seus juízes: a história, pensava ele, o absolveria. Apesar das várias citações históricas ao longo do texto, não há dúvida que é essa afirmação, inclusive transformada em título da defesa, que torna o discurso tão impactante. Isto porque há algo no nosso imaginário sobre a história e os historiadores que dá potência a essa sentença. De toda forma, como se sabe, Fidel espertamente não esperou o julgamento da história. Alguns anos mais tarde, fez ele mesmo a história, derrubando Fulgêncio Batista e instaurando uma revolução em Cuba. 

    A História como juiz






    A frase de Fidel encontra tanto eco em nosso imaginário porque, de fato, a maioria de nós imagina a história como um juiz. Para isso contribui a ideia de isenção do historiador e distanciamento dos fatos. Não é à toa que durante muito tempo pregou-se abertamente que os historiadores só deveriam tratar de fatos muito distantes do seu tempo, talvez 50 ou 100 anos para aqueles que trabalhassem com assuntos “recentes”. Só há pouco tempo temos no Brasil, por exemplo, revistas especializadas no que chamamos de “história do tempo presente”, discutindo-se episódios muito atuais. 

    Mesmo que o tratamento de temas recentes não seja mais um tabu absoluto entre os historiadores, apesar de algumas resistências, o que ainda predomina é a ideia de que assuntos polêmicos, especialmente em tempos de crise, serão revisitados décadas depois por nossos filhos ou netos, amparados em documentos que lhe permitirão enxergar o que nós, no meio das disputas políticas, não conseguimos discernir. 

    Essa ideia da história como juiz, como aquele que paira sobre as paixões políticas, nunca esteve tão presente como nos últimos dias em razão da alta polarização política que estamos vivendo. Na base da sociedade esse é um discurso recorrente no nosso grande botequim: as redes sociais. Nas últimas semanas, há várias e várias sátiras, uma hora pensando nas dificuldades dos futuros professores de história para explicar o que está acontecendo agora, outras dizendo como serão muito mais difíceis as questões de história do ENEM daqui a vinte anos, quando se tiver que responder perguntas sobre o que a política brasileira de hoje. Em todas essas piadas, revela-se a permanência dessa perspectiva básica sobre a história: em primeiro lugar, isso só será alvo de debate no futuro, talvez daqui a vinte anos. Em segundo lugar, a esperança comum é que os historiadores consigam dizer o que está acontecendo, uma vez que não estarão mais premidos pelos conflitos de hoje. 

    Na verdade esta é uma percepção que não está presente apenas nos memes e hashtags. Há epidemia desse discurso entre os políticos e até mesmo entre os jornalistas. Em fevereiro de 2016, ao analisar o acirramento dos ânimos políticos, o ex-ministro Cid Gomes ancorou-se nessa lógica: “(...) Acho que a história irá reservar ao Lula o lugar que lhe é merecido: nem o Deus do pós-eleição Dilma, nem o diabo agora”. Em 2015, logo após Michel Temer entregar sua famosa carta a presidenta Dilma, para a alegria do anedotário nacional, o ministro Miguel Rossetto condenou a ação do vice-presidente dizendo que seria a história que julgaria as ações dos políticos. O próprio Lula, em mais de uma ocasião, disse que esperava da história um julgamento justo do seu governo. Poucos dias atrás, o jornalista Kennedy Alencar – talvez tomado pelo clima de Brasília – usou um raciocínio semelhante ao dizer que um possível impeachment da presidenta Dilma seria julgado pelo “olhar impiedoso e desapaixonado da História”.  

    É bastante curiosa a sensibilidade que os políticos têm em relação a esse julgamento da história. Para quem trabalha com história política, em muitos casos é visível o esforço de políticos e de instituições para produzirem registros que serão mais tarde usados por historiadores, o que aumenta as dificuldades de interpretação dos eventos. E não é só em tempos de crise ou de aumento das polarizações que isso se revela. Fernando Henrique Cardoso se queixava dos professores dos seus netos pela forma como ensinavam aos alunos a história do seu governo. No filme Selma, de Ava DuVernay, a narrativa constrói a ideia de que, além da repercussão mundial em torno da repressão à marcha dos negros em Selma, um dos fatores que teriam feito o presidente Lyndon Johnson rever as garantias do direito ao voto dos negros americanos  seria a insistência de Martin Luther King de que ele deveria se preocupar em como seria retratado pela história.  

    Se isso realmente pesou para a decisão de Lyndon Johnson, pouco importa aqui. Muito mais importante é destacar que este é um argumento crível para um filme de distribuição mundial. 

    A História não é juiz...

    Não, os historiadores não escrevem o que lhes dá na telha, o que desejam, o que acreditam, o que acham. Toda a obra historiográfica precisa ter um lastro em documentos, em dados, o que comumente generalizamos como fontes. Fora disso, o que temos são obras de ficção e aos interessados nesse tipo de literatura recomendo a leitura de romances, ao invés de engodos historiográficos. Isto não quer dizer que o historiador seja isento, pois o documento, o dado não faz nenhum sentido sem uma interpretação. Por exemplo, parece fora de questão que os portugueses chegaram em 1500 na região onde hoje é a Bahia. Mas o que isso significou? A descoberta do Brasil? Mas existia o Brasil ou esse território estava fadado a ser o Brasil? Foi uma descoberta? Foi uma conquista? Foi o início de um massacre? Foi o pontapé para a transposição de uma civilização europeia para os trópicos, ou a montagem de uma engrenagem de exploração econômica da América pela Europa? Veja que não há como historiador pensar esse momento histórico, ou mesmo narrar esses fatos, sem se posicionar em relação ao seu significado. 

    O mais interessante a se pensar é que as próprias perguntas do historiador só são possíveis em determinados momentos históricos. Dias desses um acontecimento fortuito me lembrou a infância. Fazendo um descarte de muitos e muitos papéis, localizei um caderno que tinha sido do meu irmão caçula e que guardei porque tinha anotações das minhas impressões sobre um livro ou algo assim. A parte do caderno que cabia ao meu irmão e tinha mais de vinte anos (sim, sou um acumulador), eram páginas e páginas de textos de história, provavelmente o registro ainda comum da odiosa prática de obrigar os alunos a copiarem trechos de livros didáticos repassados na lousa pela aluna mais boazinha da classe, a mesma que depois passará o final de semana fazendo a sua cópia no próprio caderno. Ao ler aleatoriamente essas anotações, me deparei com um tópico: o que é o fato histórico? E dei boas risadas ao ver que o texto era tal qual eu me lembrava da infância. Em resumo, e certamente muitos leitores se identificarão, o texto alegava que interessava para a história apenas o que dizia ser um fato histórico. Por sua vez, o fatídico fato histórico seriam os grandes acontecimentos produzidos pelos grandes homens. Mais ou menos nessa linha, dizia que um acordo entre presidentes era um fato histórico, mas eu comer toda quarta-feira uma feijoada, não. 

    A lição era bem clara: a história é feita pelos grandes homens, presidentes, príncipes, não por vocês, guris. A não ser na condição de coro grego ou daquele figurante que faz o papel do morto. Boa parte da historiografia brasileira se fez nesse tom e até hoje mesmo estratos mais ilustrados da nossa sociedade enxergam episódios capitais da história brasileira como um xadrez entre as elites. É assim, por exemplo, em relação à independência, ainda tida por muitos como uma operação palaciana, ou talvez um acordo entre grandes senhores de terra. No entanto, hoje nesse e outros episódios sabemos muito mais sobre a participação de outros grupos sociais. Documentos demonstram que negros, índios, trabalhadores a jornal, entre outros, não eram “bestializados” e tampouco ficaram restritos ao papel de perplexos, como o que Pedro Américo reservou aos vaqueiros no famoso quadro “Independência ou Morte”. Ao contrário disso, vemos como os índios negociavam politicamente desde o início da colonização, assim como os escravos não estavam destinados apenas a escolher o papel entre o Zumbi e Pai João, entre o guerreiro e o que se submete. Todos esses homens tinham uma leitura dos fatos políticos, ainda que essa não fosse igual ao dos ilustrados.

    ...É parte da luta política

    O importante a se perceber é que esses personagens não apareciam antes na nossa história e nossos livros didáticos porque essas perguntas não eram possíveis. Os movimentos sociais, a luta dos negros, dos índios, das mulheres, o avanço das liberdades, enfim tudo isso muda o quadro das perguntas do historiador. Exemplo prático disso é a evidência de que os nossos estudos sobre a África foram impulsionados na universidade a partir de reivindicações da educação básica e a implementação da obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana nas escolas. É essa preocupação não só com outros grupos sociais, mas também com o cotidiano, que vai mudando as nossas perguntas. É isto que torna até a minha feijoada de quarta um possível objeto de estudo, tanto para uma cada vez mais interessante história da alimentação ou mesmo como mote para estudos sobre o abastecimento. 

    Além disso, evidentemente, a história também pode ser moldada pelo poder. Vale a pena lembrar que D. Pedro I patrocinou o Visconde de Cairu na elaboração da primeira história do Império do Brasil, aliás fato muito questionado pelos pares do Visconde no Parlamento. Mais tarde, nosso segundo imperador não se conteve em apenas patrocinar o nascente Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, que existe até hoje e no século XIX era o principal órgão de produção historiográfica no Império. Ao invés disso, D Pedro II trouxe a sede do IHGB para o próprio Paço, onde não só assistia como opinava sobre os encaminhamentos do Instituto, além de provavelmente dar suas famosas cochiladas. O próprio sítio do Museu Paulista e do Monumento à Independência só foi possível pela persistência de grupos paulistas em firmar o sete de setembro como data nacional, a despeito do papel secundário que teve em boa parte do século XIX. Por sua vez, a própria narrativa do Monumento, aliás muito visitado por alunos indefesos, imprime em bronze, para toda a eternidade, um discurso que beira o ridículo. Transformar os revolucionários pernambucanos de 1817 ou mesmo Tiradentes em ardorosos defensores da Independência do Brasil só demonstra como, em muitos casos, fazer história é esquecer.

    Mas não é preciso ir ao século XIX para discutir isso. Há dois acontecimentos que ocorrem agora e ilustram como a construção da história é um pedaço da luta política. De um lado, teve ampla circulação a notícia de que o Ministério Público Federal de Mato Grosso, baseado em uma reportagem de uma revista, iria abrir uma investigação sobre os livros de História recomendados no Programa Nacional do Livro Didático sob a suspeita de que eles não eram plurais politicamente. Quem definirá o que é a régua da pluralidade política do historiador? Supõe-se que o Ministério Público agora criará um critério análogo ao dos debates pré-eleitorais, obrigando-se que nos livros de história mencione-se qualidades e despautérios em equilibrada quantidade para diferentes governos ou políticas econômicas. É uma nova história, em que todos os governos são igualmente bons e ruins.

    Outro acontecimento importante é o debate da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que servirá de parâmetro para o ensino de História na educação básica. A proposta inicial foi muito atacada na imprensa, por alguns entenderem que se diminuía o peso do estudo da História Europeia. O próprio ex-ministro da educação, o filósofo Renato Janine Ribeiro, se disse horrorizado com a possibilidade dos alunos não aprenderem mais sobre o Renascimento. Os defensores da nova proposta curricular, no entanto, argumentam que não se trata de uma supressão da história europeia, mas de trazer para o centro do debate novos personagens como os indígenas, os escravos e a história africana. Lembram ainda que, os que lamentam pela diminuição de tópicos da história europeia, nunca se importaram com o fato de não se discutir nas escolas, por exemplo, a história dos povos indígenas e as consequências do seu contato com os brancos, ou mesmo a história de outros continentes como a Ásia. Quando o leitor estudou a história dos indígenas nos bancos escolares para além da Primeira Missa ou a fundação das reduções jesuíticas? O que você sabe sobre a História da China? 

    Evidentemente, as discussões sobre o BNCC estão muito simplificadas acima e merecem um artigo específico. Mas não é por acaso que tenha sido justamente na área de história que está acontecendo o debate mais acalorado na imprensa. Se a BNCC tem um mérito inegável, é o de lembrar que ensinar história é fazer escolhas, é imprimir sobre o passado um olhar. Quem vencer essa batalha certamente terá uma influência decisiva nas perguntas dos futuros historiadores. 

    Assim, o futuro olhar dos historiadores depende, em grande parte, da luta política. Então, lá vai o meu conselho: caro amigo, não espere o julgamento da história. Como diz a canção, hoje tão atual, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.       

    André Roberto de A. Machado é historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo

     (Publicado originalmente no portal Carta Maior)