domingo, 31 de janeiro de 2016

Quem ganha com a destruição política de Lula

Quem ganha com a destruição política de Lula

Por Renato Rovaijaneiro 31, 2016 12:47
lulaNão é incomum políticos viverem dramas pessoais nas suas trajetórias mesmo quando optam pelo caminho do meio. Ulisses Guimarães, por exemplo, foi o principal nome do PMDB no período da ditadura. E era nome certo pra disputar e ganhar a eleição presidencial se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada no Congresso.
Nas eleições indiretas, porém, Tancredo se impôs por seu perfil mais conservador e Ulisses teve de esperar até 1989 para ser candidato. Fez 4,75% dos votos válidos.
Em outubro de 1992, o avião de Ulisses  caiu no mar e seu corpo nunca mais foi encontrado. Mas seu sumiço político já havia acontecido antes, naquele final de 1989, quando ficou em sexto lugar tendo tido menos votos até que Guilherme Afif Domingues.
Ulisses de alguma forma foi vítima de seu espírito conciliador e de sua fidelidade ao projeto político que conduzia. Abriu mão de sua candidatura para Tancredo, quando poderia ter imposto seu nome e buscado derrotar Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. E com a morte de Tancredo, bancou a sucessão com Sarney, quando havia quem defendesse que ele substituísse o presidente que não havia tomado posse.
Com Lula a história é outra, mas também tem relação com o seu espírito conciliador e fidelidade ao projeto. Lula é um sindicalista em atividade política. A principal qualidade e o principal defeito dos sindicalistas é que eles sempre buscam acordos.
O Brasil poderia ter se tornado um país muito mais violento do ponto de vista político se a liderança de Lula não tivesse se consolidado nos setores mais populares e de esquerda. Lula foi quem deu esperança a esses segmentos de que as coisas poderiam mudar no voto e que o país poderia se tornar mais justo com a eleição de pessoas comprometidas com um programa de reformas.
Lula disputou quatro eleições para ganhar a presidência da República e, ao vencer fazendo acordos, manteve não só muitos deles como fez uma série de outros.
De alguma forma, eles permitiram que realizasse dois governos muito bem avaliados e ao mesmo tempo que deixasse de fazer uma série de coisas que poderiam mudar estruturalmente o país.
Mas Lula ainda poderia ter feito como Fernando Henrique e mudado as regras do jogo no meio do seu mandato, aprovando uma emenda que permitisse reeleições indefinidas.
Provavelmente ainda hoje seria presidente da República.
Mas seu espírito conciliador o levou de forma correta a não jogar fogo no país comprando uma briga desnecessária.
Depois das grandes manifestações de 2013, poderia ter dito a Dilma que era a hora de voltar. E seria ungido não só pelo PT como candidato, como teria amplo apoio na sociedade. Não foram poucos os empresários a ir ao seu Instituto lhe pedirem para aceitar o desafio.
Mas Lula não queria problemas com Dilma. E achava que ela tinha o direito de disputar a reeleição. Aos mais íntimos dizia que só havia uma chance de disputar em 2014, se Dilma lhe pedisse.
Ou seja, por fidelidade, manteve-se fora da última disputa presidencial.
Neste período em que atuou como figura pública, ou seja, desde o final dos anos 70 até agora, Lula fez muita coisa errada. Mas em geral errou mais por conciliar do que por botar fogo no país, como alguns sugerem.
Errou mais por fidelidade do que por traição.
Manteve, por exemplo, apoio à família Sarney  no Maranhão contra projetos muito melhores e com as quais tinha mais identidade. Por fidelidade ao ex-presidente que não jogou contra seu mandato no meio da crise do mensalão.
O fato é que sem Lula e sua liderança o Brasil poderia estar vivendo hoje um momento mais Haíti do que Espanha ou Portugal, por exemplo. A democracia brasileira tem problemas, mas avançou muito neste período democrático. E isso também tem muito a ver com a forma como Lula se comportou.
Isso não significa que Lula não deve ser investigado e até ser condenado se praticou crimes. Mas execrá-lo e persegui-lo não é um bom caminho.
O maior jornal diário do país buscar provar, às custas da nota fiscal de um barquinho de 4 mil reais, que o o ex-presidente é dono de uma fazenda e  o governador do maior estado do país tratá-lo por conta disso como líder de quadrilha, quando seu governo é investigado por graves desvios em setores fundamentais como o do metrô e da merenda escolar, é jogar álcool no incêndio.
Se Lula for condenado porque cometeu crimes claramente comprovados, o país viverá um momento duro, mas dará a volta por cima. E surgirão novas lideranças para defender e dar  sentido aos ideias que o líder petista representou por muitos anos.
Se Lula for preso com base em conjecturas ou a partir de uma narrativa que reúne um barquinho de lata sem motor, suposições a partir do depoimento de um zelador e mais uma montanha de matérias de jornais que estão sendo questionadas judicialmente, o risco é imenso (sobre isso, confira a resposta do Instituto Lula divulgada na noite de ontem).
Isso poderá significar pra muita gente que não há como conversar com certos setores e que só existe um caminho para enfrentá-los, o da violência.
E isso não apenas para os que hoje estão com Lula.
Mas para outros que estão forjando suas lutas e que verão que mesmo um líder que sempre conversou com todos os setores e buscou a conciliação se deu mal.
E esses terão essa lição como guia para radicalizar seus discursos e suas ações.
Destruir Lula pode até satisfazer a sanha por sangue de alguns, mas pode alimentar o desejo por sangue de outros.
Ninguém ganha nada com isso.
(Publicado originalmente na Revista Fórum)

Lula acreditou na conciliação de classes. Filhos do Roberto Marinho, não.


publicado em 30 de janeiro de 2016 às 13:36
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O suspeitíssimo iate do Lula: segundo a Folha, R$ 5 mil reais em valores “atualizados”. Rsrsrs
por Luiz Carlos Azenha
De 15 para 16 de setembro de 2006. Uma equipe da Polícia Federal prende “aloprados” do PT com dinheiro vivo em um motel de São Paulo. Eles supostamente tentavam comprar um dossiê contra José Serra, candidato do PSDB ao governo de São Paulo.
O jornalista investigativo Amaury Ribeiro Jr. diz que foi uma ação de contra-inteligência. Algo comum nos bastidores de campanha. Você joga uma isca, a campanha adversária morde e, além de posar de vítima, você tem um argumento para tentar “virar” a eleição de última hora.
Estávamos, então, na reta final da campanha de 2006. Lula candidato à reeleição, Geraldo Alckmin encabeçando a chapa tucana. A TV Globo de São Paulo despachou uma equipe para cobrir a chegada dos “aloprados” presos à sede da PF em São Paulo.
Ao chegar, o repórter da Globo notou que tinha companhia: a primeira equipe de TV no local era da produtora a serviço de Alckmin. Curioso, não? Será que a campanha de Alckmin foi a primeira a saber das prisões, antes mesmo que a Globo?
O fato é que deu certo. Alckmin usou o episódio na reta final. Conseguiu levar a eleição para o segundo turno. A mídia explorou o episódio diuturnamente, colocando o PT na defensiva.
O delegado Edmilson Bruno, da PF, deu o toque derradeiro: vazou as fotos do dinheiro apreendido na antevéspera do primeiro turno.
A eleição foi disputada com o presidente da República retratado com um capuz na primeira página da Folha e doEstadão, logo abaixo das fotos do dinheiro dos aloprados. Uma forma pouco sutil dos Frias e Mesquita de dizer que Lula era bandido.
Eu já havia narrado anteriormente que, como repórter do Jornal Nacional, testemunhei pessoalmente o esquema pelo qual os barões da mídia fazem avançar seus interesses políticos e econômicos: a famosa repercussão da capa da Veja.
Ela sai na sexta, no sábado ganha espaço no Jornal Nacional com reprodução acrítica, ou seja, sem que as informações sejam checadas de forma independente. No domingo é publicada na Folha, no Estadão e em O Globo. E, assim, o assunto ganha pernas.
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Nos últimos dias vimos a reprise.
Primeiro, a capa da revista Veja:A Hora da Verdade, anunciando o enterro de Lula a partir de pré-julgamento de um promotor paulista.
Em seguida, mais uma etapa da Operação Lava Jato, batizada pela PF de Triplo X.
Jornal Nacional mergulha no assunto. Folha eEstadão repercutem e trazem “novidades”.
Folha, requentando a Veja, fala na reforma de um sítio supostamente bancada pela Odebrechet. Acha um barco de alumínio que “liga” Lula ao sítio.
É tudo assim, na base da presunção: Lula seria o dono oculto do triplex reformado pela OAS e seria o dono oculto do sítio por ter deixado lá, com nota fiscal e tudo, um barco de alumínio. O ex-presidente nega ter recebido favores de empreiteiras.
Esta presunção de culpa é reservada a Lula e aos inimigos políticos; o mesmo não se dá com FHC, Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin…
Como sempre denunciamos, desde 2006, dois pesos, duas medidas.
Um distorção que tem consequências políticas óbvias.
Tudo se parece com 1989, quando Lula concorreu ao Planalto pela primeira vez contra Fernando Collor. Este o acusou, então, de ser dono de um luxuoso aparelho de som três em um, supostamente incompatível com a renda do operário do ABC. Era uma forma de retratar Lula como traidor de classe.
A tática, agora, é a mesma. Lula se diz defensor dos pobres mas enriqueceu no Planalto, gritam as manchetes. Tanto, que ia desfrutar de um luxuoso triplex no Guarujá. E ganhou churrasqueira nova para seus fins-de-semana de pesca num sítio em Atibaia.
Não é preciso esperar pelos desdobramentos das investigações. Pelo devido processo legal. Isso é acessório. O importante, calcula a oposição, é gerar a espuma que corroa ainda mais a imagem de Lula.
O objetivo é queimá-lo com o que restou de seu eleitorado, especialmente no Nordeste.”Ele arranjou uma boquinhas enquanto estava no Planalto”, anunciam nas manchetes os barões midiáticos.
As acusações sobre o triplex e o sítio acontecem num momento em que a opinião pública já está saturada de denúncias de corrupção. Caem, portanto, em solo fértil. O ódio contra o PT e petistas chegou aos grotões. Faz tempo. Prova disso é que milhões de brasileiros acreditam que um dos filhos do Lula é dono da Friboi — e isso a partir de mentira disseminada nas redes sociais.
Lula governou para os ricos, mas reservou algumas migalhas para os pobres. Um luxo que o Brasil, na visão da elite neoliberal, só podia sustentar enquanto estava crescendo. Na crise, Lula se tornou um estorvo ainda maior. Para enfraquecê-lo, pensando em 2018, é preciso tomar do PT a Prefeitura de São Paulo. É disso que se trata, agora: solapar as bases de uma nova candidatura do Lula carimbando o principal cabo eleitoral de Fernando Haddad: corrupto.
Ouvi, do senador Roberto Requião, a seguinte história, que o Renato Rovai reproduziu em seu blog:
Segundo ele[Requião], no primeiro mandato de Lula, quando era governador, foi ao encontro do presidente e lhe contou o que havia feito na comunicação do Paraná, onde acabou com a verba publicitária e investiu todos os recursos na TV Educativa local. Lula teria se animado com o que ouviu e pediu-lhe que conversasse com o então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Requião foi ao quarto andar do Palácio e enquanto contava ao ex-ministro sobre o quanto a TV Educativa estava sendo importante para o governo, Zé Dirceu teria lhe interrompido e dito: “Requião, mas o governo também tem uma TV”. Isso aconteceu antes da criação da TV Brasil, que se deu no segundo mandato de Lula. Requião teria ficado surpreso e perguntou: “Mas que TV, Zé?”. Ao que o então ministro respondeu: “A Globo, Requião.”
José Dirceu e Lula chegaram ao poder apostando tudo na conciliação de classes. Experimentam, agora, o poder da guerra de classes movida pelos barões da mídia. Você pode até esquecer que nasceu pobre, foi do pau-de-arara ao Planalto, dividiu a mesa e serviu aos ricaços. Mas quem está “por cima” não esquece nunca…
(Publicado originalmente no site Viomundo)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Charge! Dalcio Machado via Facebook

Michel Zaidan Filho: Estão nossos governantes acima da lei?




Se tivéssemos uma imprensa mais preocupada com o interesse público do que com as  imensas verbas  publicitárias da propaganda oficial, talvez não tivéssemos de aturar, no meio do caos urbano da tempestade, da falta de luz, dos raios e da falta de ônibus, comentários de cidadãos comuns sobre a inutilidade de protestar contra o descaso das autoridades públicas com a   lamentável situação da cidade. Ao invés da cobrança  e da responsabilização penal pelo descalabro sofrido pela população recifense, em meio ao vendaval que tomou conta da cidade, as TVs mostraram a imagem do Prefeito, confortavelmente sentado, pilotando o sistema de monitoração das câmeras da Prefeitura do Recife. 

Como no caso da epidemia ( hoje internacional) da   microcefalia, os principais responsáveis pela cidade (e seus problemas) viram heróis de guerra (ao mosquito) e a população, a principal responsável pela caça ao mosquito. É possível mesmo achar, como faz o imaginário popular, que nossas autoridades estão blindadas contra toda e qualquer forma de reivindicação  e que a resposta é a polícia militar e a polícia civil?- Ainda compartilham do infame pensamento de que a questão urbana (e social) é um mero caso de agitadores comunistas, que atribuem um cunho político a cada movimento da sociedade civil, cobrando, exigindo providencias em relação ao abandono em que se encontra a cidade?
                            
Da ótica conspiratória do aparelho policial, tudo que não for a favor ou em promoção da imagem pública dos nossos gestores - em época de reeleição, está proibido. Com exceção, é claro, do futebol e do carnaval. O futebol, identificado com a obra - ora sob suspeita - monumental e inútil da Arena Pernambuco. E o carnaval, com a troça que homenageará os 100 anos de Miguel Arraes - além dos hospitais, avenidas, viadutos, pontes que ganharam o seu nome. Pelo visto, em Pernambuco, vence na vida quem diz  "sim" ao nepotismo, ao patrimonialismo, à bajulação e ao puxa-saquismo "desinteressado". O resto é considerado atividade de cunho político-partidário e ilegal. 

Afinal de contas, é ou não é um crime de responsabilidade a falta de políticas públicas em relação à saúde pública, à falta de segurança nos ônibus e a superlotação carcerária e suas sucessivas revoltas, o transporte público de qualidade e barato, o funcionamento dos hospitais públicos, o fornecimento da energia elétrica? - É dos coitados dos cidadãos e cidadãs, procurando se amparar da chuva, dos raios, a ausência de ônibus e da escuridão? - Ele tiveram a má sorte de escolherem como prefeitos e governadores,  gestores que se utilizam dos cargos ora para se promoverem - com o inestimável da mídia amiga - ora  para se esquivarem do reconhecimento das legítimas manifestações críticas de seus concidadãos e concidadãs?


Daqui há pouco, vamos chegar a conclusão que a famosa "inversão das prioridades" da administração pública consiste em eleger como ações prioritárias: a propaganda, a repressão policial, o futebol (e os empreiteiros amigos), o carnaval oficioso, o pagamento das obrigações financeiras das PPPs e a família? O resto é para pagar impostos e contribuições, obedecer e dizer sim e reeleger esses virtuosos gestores. Em bom juridiquês: é o fenômeno  da sub-integração jurídica, de subcidadãos, cidadãos de segunda categoria, cidadãos sem direitos, só com deveres.



Uma sugestão, em tempo de folia, cadê a troça ou a alegoria que mostra nossas bravas autoridades na luta encarniçada contra os mosquitos? - Talvez, como cinema americano, aquilo que não se consegue vencer no  plano da realidade, se consiga no plano da fantasia. E, aliás, o que é a propaganda governista, senão uma fantasia - cara - e sem graça?

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE
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Michel Zaidan Filho: Transparência, recursos públicos e administração.

   




Um dos imperativos da gestão republicana, insculpido num dos parágrafos da Constituição de 1988 é o ideal da transparência nos negócios públicos, em qualquer escalão da administração do Estado brasileiro. Como soe acontecer, facilmente um comando constitucional de tamanha importância para o pleno exercício de uma cidadania  e participante transformou-se num mero “slogan”, numa palavra vazia empregada sem o menor pudor pelos governantes de turno. O que era para ser uma condição sine qua non de uma boa gestão transformou-se num mero recurso publicitário caro e enganoso. Veja-se o que ocorreu com a propaganda institucional da Prefeitura do Recife exatamente sobre a “transparência”.  A assessoria de marketing do Prefeito resolveu usar a palavra para fazer propaganda da gestão de Geraldo Júlio. E conseguiu a proeza de colocar nos Outdoors da cidade um cartaz que diz ser a gestão pessebista “campeã” de transparência. 

Aí está um exemplo de como usar a preceito constitucional da “transparência” para enganar os cidadãos e cidadãs. Em matéria divulgado pelo TV GLOBO, a cidade campeã de transparência é Porto Alegre (RS), depois vem São Paulo. Nesse mesma matéria, não há nenhuma menção à Prefeitura do Recife. Este ranking foi estabelecido pelo Ministério Público Federal. A Prefeitura da cidade deve confundir transparência com excesso de propaganda (enganosa). Haja vista o avalanche de peças publicitárias, sem conteúdo informativo nenhum, que abarrota as televisões locais.

Mais grave é com certeza o caso do confrade de Geraldo Júlio, no governo do Estado de Pernambuco. Aí a coisa é trágica. Imagine o ponto mais agudo de uma epidemia de microcefalia (em Pernambuco: 1.700 casos), com hospitais fechados, falta de leitos ou vaga em UTI, demissão coletiva de médicos nas UPAS, falta de pagamento aos prestadores de serviço no setor de Saúde, e o nosso gestor destina a bagatela de 1.000.070,00 para compra.......das três capas dos jornais locais, no dia 23 de novembro de 2015, para quê? – Para promover campanhas de filantropia privada! Bem ao modo dessa administração de estimular a transferência de responsabilidade, dos serviços juridicamente tutelados pelo Estado, para as famílias, o mercado e a comunidade. 

Enquanto os usuários penam atrás da prestação uniforme e qualificada das ações na saúde, educação, emprego, segurança pública, cultura e lazer, a preocupação do governo é comprar flores para o seu gabinete, financiar os jornais locais, estimular a filantropia privada e pagar os compromissos financeiros da construção da Arena Pernambuco. E tome falação sobre a unidade, sobre as dificuldades do ano passado, sobre o caráter do sertanejo e nordestino e por aí vai.


Se nossas autoridades públicas querem “destravar” a situação econômica e social do Estado poderia começar passando a limpo os grandes escândalos denunciados pela imprensa nacional (não a local) aqui de Pernambuco, apurando as responsabilidades dos agentes envolvidos nesses escândalos e cuidar do povo pernambucano. As “belas” mentiras da propaganda oficial do governo municipal e estadual têm prazo de validade, tanto quanto a paciência do nosso povo. Não se governa para as próximas eleições. Se governa para atender as ingentes necessidades da maioria da população.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Leonardo Boff: A sociedade do cansaço e do abatimento social.


Um dito da revolução de 1968 dizia: 'metrô, trabalho, cama'. Agora se diz: 'metrô, trabalho, túmulo'. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida


Leonardo Boff
Arquivo RBA
Há uma discussão pelo mundo afora sobre a “sociedade do cansaço”. Seu formulador principal, é um coreano que ensina filosofia em Berlim, Byung-Chul Han, cujo livro com o mesmo título acaba de ser lançado no Brasil (Vozes 2015). O pensamento nem sempre é claro e, por vezes discutível, como quando se afirma que “cansaço fundamental” é dotado de uma capacidade especial de “inspirar e fazer surgir o espírito” (cf. Byung-Chul Han, p. 73). Independentemente das teorizações, vivemos numa sociedade do cansaço. No Brasil além do cansaço sofremos um desânimo e um abatimento atroz.
  
Consideremos, em primeiro lugar, a sociedade do cansaço. Efetivamente, a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação que nos chega pelas mídias sociais, nos produzem, dizem estes autores, doenças neuronais: causam depressão, dificuldade de atenção e uma síndrome de hiperatividade.
  
Efetivamente, chegamos ao fim do dia estressados e desvitalizados. Nem dormimos direito, desmaiamos.
  
Acresce ainda o ritmo do produtivismo neoliberal que se está impondo aos trabalhadores no mundo inteiro. Especialmente o estilo norteamericano que cobra de todos o maior desempenho possível. Isso é regra geral também entre nós. Tal cobrança desequilibra emocionalmente as pessoas,  gerando irritabilidade e ansiedade permanente. O número de suicídios é assustador. Ressuscitou-se, como já referi nesta coluna, o dito da revolução de 68 do século passado, agora radicalizado. Então se dizia: “metrô, trabalho, cama”. Agora se diz: “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer: doenças letais, perda do sentido de vida e verdadeiros infartos psíquicos.  


  
Detenhamo-nos no Brasil. Entre nós, nos últimos meses, grassa um desalento generalizado. A campanha eleitoral turbinada com grande virulência verbal, acusações, mentiras e o fato de a vitória do PT não ter sido aceita, suscitou ânimos de vindita por parte das oposições. Bandeiras sagradas do PT foram traídas pela corrupção em altíssimo grau, gerando decepção profunda. Tal fato fez perder costumes civilizados. A linguagem se canibalizou. Saiu do armário o preconceito contra os nordestinos e a desqualificação da população negra. Somos cordiais também no sentido negativo dado por Sergio Buarque de Holanda: podemos agir a partir do coração cheio de raiva, de ódio e de preconceitos. Tal situação se agravou com a ameaça de impeachment da Presidenta Dilma, por razões discutíveis.  
 
Descobrimos um fato, não uma teoria, de que entre nós vigora uma verdadeira luta de classes. Os interesses das classes abastadas são antagônicos aos das classes empobrecidas. Aquelas, historicamente hegemônicas, temem a inclusão dos pobres e a ascensão de outros setores da sociedade que vieram ocupar o lugar, antes reservado apenas para elas. Importa reconhecer que somos um dos países mais desiguais do mundo, vale dizer, onde mais campeiam injustiças sociais, violência banalizada e assassinatos sem conta que equivalem em número à guera do Iraque. Temos ainda centenas de trabalhadores vivendo sob condição equivalente à  escravidão.  
 
Grande parte destes malfeitores se professam cristãos: cristãos martirizando outros cristãos, o que faz do cristianismo não uma fé mas apenas uma crença cultural, uma irrisão e uma verdadeira blasfêmia.  
 
Como sair deste inferno humano? A nossa democracia é apenas de voto, não representa o povo mas os interesses dos que financiaram as campanhas, por isso é de fachada ou, no máximo, de baixíssima intensidade. De cima não se há de esperar nada pois entre nós se consolidou um capitalismo selvagem e globalmente articulado, o que aborta qualquer correlação de forças entre as classes.  
 
Vejo uma saída possível, a partir de outro lugar social, daqueles que vêm debaixo, da sociedade organizada e dos movimentos sociais que possuem outro ethos e outro sonho de Brasil e de mundo. Mas eles precisam estudar, se organizar, pressionar as classes dominantes e o Estado patrimonialista, se preparar para eventualmente propor uma alternativa de sociedade ainda não ensaiada mas que possui raízes naqueles que no passado lutaram por um outro Brasil e com projeto próprio. A partir daí formular outro pacto social via uma constituição ecológico-social, fruto de uma constituinte exclusiva, uma reforma política radical, uma reforma agrária eurbana consistentes e a implantação de um novo design de educação e de serviços de saúde. Um povo doente e ignorante nunca fundará uma nova e possível biocivilização nos trópicos.
 
Tal sonho pode nos tirar do cansaço e do desamparo social e nos devolver o ânimo necessário para enfrentar os entraves dos conservadores e suscitar a esperança bem fundada de que nada está totalmente perdido, mas que temos uma tarefa histórica a cumprir para nós, para nossos descendentes e para a própria humanidade. Utopia? Sim. Como dizia Oscar Wilde:  “se no nosso mapa não constar a utopia, nem olhemos para ele porque nos está escondendo o principal”. Do caos presente deverá sair algo bom e esperançador, pois esta é a lição que o processo cosmogênico nos deu no passado e nos está dando no presente. Em vez da cultura do cansaço e do abatimento teremos uma cultura da esperança e da alegria.
 
Leonardo Boff, colunista do JB on line e escritor


Créditos da foto: Arquivo RBA

(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A desigualdade revisitada

A desigualdade é uma das caras do poder, seja ele qual for, de batina, de farda, de terno e gravata ou terninho, de posição social ou econômica.


José Carlos Peliano*
EBC
A questão da desigualdade é milenar, bafeja tempos imemoriais de acordo com a situação e as condições de cada época histórica. Só para lembrar, Cristo já dizia que os “últimos serão os primeiros”. Este alerta foi um dos letreiros mais brilhantes de sua passagem por aqui.
 
Em sua mensagem a providência de todos no sentido de tirar do pé da escada os despossuídos e desvalidos e os levarem para junto aos demais nos degraus de cima. Seja no reino dele, seja no mundo dos homens.
 
A teologia da libertação de saudosa memória, para começar este texto pelo âmbito religioso, já pregava a emancipação dos pobres dos grilhões da estrutura social e econômica anacrônica, conservadora e reacionária.

A mensagem mais perturbadora de Cristo “amai o próximo como a ti mesmo” é a antítese da desigualdade, pois ela conclama a aproximação fraterna, livre e desimpedida de iguais, seres humanos que dependem do trabalho para construir suas vidas e um mundo melhor.



Ainda persiste as sementes de suas mensagens e ensinamentos pelos rincões brasileiros, embora abafada pela sanha da máquina do sistema e pela própria alta administração da Igreja em Roma que silenciou padres, bispos e teólogos.

No fundo, no fundo, a desigualdade é uma das caras do poder, seja ele qual for, de batina, de farda, de terno e gravata ou terninho, de posição social ou econômica. Não é à toa que a maioria esmagadora dos revolucionários vieram de baixo, dos despossuídos. Eric Hobsbawm foi um dos que tratou desse assunto em seu livro imperdível Os Bandidos.

O poder do estado se assenta de um lado na legislação que limita, impõe e pune e de outro lado nos aparatos judiciais, policiais e militares. O cidadão já nasce e entra na vida fragilizado diante de um poder constituído e visível que só permite ações dentro do regramento social e da conduta civil legal.

Não que se sustente a esbórnia geral e irrestrita, caso em que estaríamos à beira da barbárie, mas que o cidadão se valha da insubordinação civil para protestar e defender direitos porventura cerceados ou impedidos.

O poder dos sistemas econômicos por sua vez vem da hierarquia estabelecida na sociedade pelas classes e estamentos sociais e nas unidades produtivas pelas classificações ocupacionais e estruturas salariais. Tipo cada macaco no seu galho.

Das relações entre o poderes do estado e dos sistemas econômicos se estabelecem as posições sociais dos indivíduos ou grupos e suas respectivas porções de riqueza entre ativos físicos e financeiros. Essa tessitura social e econômica é que sustenta nas comunidades, classes e grupos as bases e fundamentos dos regimes.

Uma armadura complexa que domina o dia a dia das sociedades e das economias é difícil de ser rompida ou alterada para a redução dela mesma, isto é, para a melhoria da desigualdade dela nascida, reproduzida e mantida.

Apesar do fracasso econômico das experiências socialistas conhecidas, os seus regimes conseguiram melhorar consideravelmente a situação social dos cidadãos ao reduzir a desigualdade.

Dirão os críticos que a turma dirigente manteve privilégios, o que não é verdade em todos os casos, mas mesmo assim a maioria da população conseguiu obter o básico para viver, trabalhar, estudar e cuidar da saúde. Recentemente, por exemplo, relatório da ONU apontou Cuba como o país com os melhores níveis alcançados no mundo em saúde e educação.

O fracasso econômico das experiências socialistas contrasta com a pujança econômica do capitalismo. Ao revés o fracasso social do capitalismo contrasta com condição social do socialismo. A desigualdade no capitalismo sobrepuja a do socialismo.

Talvez seja uma questão de peso e medida. A combinação dos sucessos de um e de outro, tendo em conta seus respectivos fracassos, pode apontar, se é que seja possível, para alguma solução conciliatória. Que embora há séculos sendo procurada ainda não rendeu frutos. Só o futuro dirá.

No caso do Brasil, a melhoria da desigualdade é evidente desde 2003 para cá. A maioria dos indicadores aponta para essa direção nos estudos efetuados pela margem direita e pela esquerda do rios brasileiros.

Estudo recente feito por pesquisadores do IPEA, cobrindo o mais vasto período de tempo até hoje abordado, aponta que a desigualdade no país oscilou de pior no período da ditadura e melhor nos governos de Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Já nos anos recentes pesquisa minha** mostra que nos últimos quatro governos do país a desigualdade reduziu de forma acentuada. Programas como o PAC (Programa de Aceleração Econômica), Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, PRONATEC, PROUNI e outros contribuíram para o resultado, além de aumentos reais do salário mínimo.

Brasileiros antes na marginalidade, subocupados, sem formação profissional, enfim o contingente fora do mercado, passaram a movimentar a economia pelo aumento da renda familiar. Exemplos são inúmeros.

Dado divulgado esses dias mostra outra forma de comprovar a redução da desigualdade no país. A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) anunciou que, nos últimos dez anos o transporte aéreo de passageiros cresceu em contraposição ao rodoviário interestadual, que recuou.

Aeroportos cheios de passageiros que nunca voaram na vida, coisa que perturbou inúmeras socialites, é sinal evidente que eles passaram a poder comprar bilhetes aéreos porque suas rendas melhoraram de nível.

Os números mostram que, enquanto em 2004 o transporte rodoviário respondia por 69% e o aéreo por 31% dos passageiros transportados, em 2014 a relação se inverte de 40% para 60% respectivamente. Em números absolutos o aéreo pula de 30 milhões para 83 milhões e o rodoviário despenca de 67 milhões para 54 milhões. Ajudou nessa revirada o sistema de crédito de corte mais popular.

Duas lições para o país. Uma que a desigualdade aumentou no período da ditadura, outra que a saída pelo desenvolvimento é a alternativa, quando inegavelmente a desigualdade reduz. Já a austeridade só tende a piorar as coisas como no Brasil atual e na Europa dos últimos anos.

É simples entender o bê-a-bá da desigualdade. Se a situação econômica permite criar empregos ou mantê-los e melhorar os níveis de renda do trabalho ou mantê-los, bola para frente. Se, ao revés, os empregos são destruídos e os níveis de renda reduzidos, pare a bola.


*colaborador da Carta Maior
** http://tomemnota.blogspot.com.br/2014/11/movimentos-das-distribuicoes-de-renda.html
(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)

Michel Zaidan Filho: Um ano politicamente perdido e com muitas incertezas na economia


 

Foi solicitado que se fizesse uma análise do ano político de 2015 e, se possível, algumas projeções para o ano de 2016. A primeira coisa a dizer é que o ano começou em 2014, ou seja, na campanha eleitoral de 2014. E segundo, o ano não acabou. Com ou sem recesso do Poder Legislativo, por causa da votação da LDO e do processo do "Impeachment", o fato é que prolongamos a agonia política e a incerteza econômica para dentro de 2016, com todas as consequências sociais, políticas e econômicas que essa constatação traz consigo.O primeiro ano do segundo mandato da Presidente Dilma Rousseff foi um cabo de guerra com o Presidente da Câmara dos Deputados, com os partidos de Oposição no Congresso e, pasmem, com próprios aliados.  

Ou seja, a Presidente teve sua agenda de governo ditada pelos adversários e mesmo assim não conseguiu o apoio que precisava para aprová-la. A começar do ex-presidente Lula, alijado da equipe de governo, desde o primeiro momento. Uma Presidenta sem os traquejos e meneios típicos de um bom articulador político, sem articulador político, e com um Congresso hostil a si, só podia produzir uma situação de impasse permanente, alimentado pelo revanchismo daqueles que nunca se conformaram com a derrota nas eleições de 2014.
 
A aliança com partidos como PTB, PR, PMDB, PRB teria que produzir os frutos nefastos que, cedo ou tarde, apareceriam: defecções, traições, chantagem, desagregação partidária e derrotas, muitas derrotas no Congresso. Nunca o tal "Presidencialismo de Coalizão" se mostrou tão fraco e duvidoso, como nessa legislatura. Talvez tenha alcançado o seu limite de validade; e os partidos não se deram conta disso. Aliado ao fato da péssima qualidade da composição atual do Legislativo: 75 evangélicos, 27 partidos, e uma aliança com mais de 10. Resultado: alto grau de fragmentação política e uma dificuldade ainda maior de se obter uma maioria parlamentar. Dificuldade com a progressiva desagregação da base aliada da Presidenta, incluindo aí os membros do próprio partido do governo. 
 
A frente econômica atuou como um agravante da crise política, sendo por ela também retroalimentada. Se a Presidenta gozasse do apoio dos agentes econômicos (internos e externos), um céu de brigadeiro no ambiente externo e uma alavancagem do setor privado através de subsídios, créditos facilitados e renúncia fiscal, haveria quase uma unanimidade em torno dela. Infelizmente, as consequências da política anti-cíclica adotada por ela no primeiro mandato contribuíram muito para acabar com o otimismo  e as expectativas desse setor, que de aliado - no primeiro mandato - passou a oposição. O presidente da FIESP, Paulo Skaf declarou o seu apoio ao processo de Impeachment. 

O pacote fiscal preparado para o enfrentamento da crise, bem como os ministros da área econômica, aumentando impostos, cortando direitos e benefícios, alongando o prazo para o gozo da aposentadoria produziram um efeito paradoxal: recessão e inflação. E uma alta taxa de juros, comemorada pelos setores especulativos e rentistas da economia brasileira. Quase nenhuma medida desse pacote mexeu com os privilégios e ganhos do andar de cima. Enquanto os eleitores da Dilma tiveram que arcar com o custo do ajuste. E preciso dizer também que o início do processo de Impeachment ajudou a piorar a situação dos indicadores econômicos do país, lançando uma dúvida no horizonte da economia brasileira. Sem apoio político, a Presidenta teria condições de enfrentar a crise?
 
De forma, quando olhamos para frente (2016), temos a angustiante impressão que os problemas de 2015 vão continuar no ano novo. Muitas das questões que poderiam ter sido resolvidas neste ano tumultuado e cheio de confusões, ficarão para o próximo ano. A crise econômica pode até arrefecer com o desfecho da crise política. Mas o "imbróglio" do sistema político brasileiro, a sua baixa e precária sustentabilidade, a falta de representatividade e a extrema fragmentação do campo político e a ausência de saudáveis relações entre os poderes vão continuar. Não há no horizonte próximo nenhum indício de que essas crises não voltem a se manifestar no cenário político brasileiro.
 
P.S.: DOIS FATOS RECENTES TRAZEM ALGUM ALENTO PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA: A JUDICIALIZAÇÃO DA CRISE POLÍTICA E O DESFECHO DA REUNIÃO DO STF EM RELAÇÃO AO RITO DO IMPEACHMENT E AS MANIFESTAÇÕES DE RUA A FAVOR DO MANDATO DA PRESIDENTA DILMA. OS DOIS MOSTRAM À SACIEDADE QUE ESTE CONGRESSO NÃO MERECE A MENOR CONFIANÇA DA POPULAÇÃO.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD -UFPE.