segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Michel Zaidan Filho: A política e a amizade. A política da amizade?


Os gregos – que eram sábios – separaram como ninguém o espaço da pólis (política) do espaço do óikos (casa). Fizeram isso para não contaminar o espaço da política com os interesses comezinhos da luta pela sobrevivência. Como dizia o filósofo, um homem que precisa dedicar grande parte de seu dia ao trabalho, não era livre. Só os que podiam se dedicar inteiramente aos negócios públicos, desinteressadamente, podiam ser chamados de cidadãos. Essa desconfiança da mistura entre política e interesses se manifestou, mais tarde, no pensamento da Hannah Arendt que chamou os parlamentos modernos de praças de negócio, comandadas pelos simples interesses: e não pelo bem comum. 

Daí pensar a dignidade da política, como uma ”vita contemplativa”, distanciada do vil interesse material. Seu primo, Walter Benjamin foi mais além: negou-se terminantemente a conceder à política moderna qualquer propósito sensato, concebendo-a como um mero discurso estratégico, submetido sempre à uma vontade de poder. Foi preciso recorrer à linguagem e aos atos retóricos para pensar a política como a arte do diálogo, da comunicação, do entendimento mútuo, a serviço da libertação (Habermas). Hoje, a inevitável judicialização da política acabou com as belas promessas do discurso político e entregou aos juízes a decisão sobre o certo e o errado do mundo político, deslocando a sua racionalidade para o interior das cortes.

É possível salvar a política, na concepção do “bom e justo governo da cidade”, como queria Aristóteles? Ou será que ela é uma atividade decididamente comprometida com meros imperativos de poder, sem pretensão de validade ética ou cognitiva? – É possível pensar uma política da amizade, da boa-fé, do entendimento ou do diálogo entre pessoas de boa vontade?

Aqui, sobressai o nome de Platão e de sua obra “O banquete”. Só é possível resgatar a dimensão da amizade, da boa vontade e da boa-fé entre os políticos, os as pessoas políticas (zoon politicom), se for possível pensar na reerotização das relações humanas, de um modo geral. Enquanto banirmos essa razão sensível dos nossos negócios, a política continuará a serviço de interesses estratégicos ou materiais, com muito pouco margem de manobra para a dimensão da amizade, do acordo, do diálogo e do entendimento. Nem só do pão e do dinheiro vive a criatura humana. Vive-se também, e sobretudo, de respeito, auto orgulho, de atenção. A política do interesse tem que permitir a política do reconhecimento, se quisermos reabilitar o discurso político e a nossa confiança nos políticos. Senão Thomas Hobbes, Maquiavel, Nietzsche e Foucault terão dado a sua última palavra sobre isso. E aí não teremos salvação.


Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador no Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

Intolerância: Pai, afasta de nós esse cálice


Intolerância: Pai, afasta de nós esse cálice

PUBLICADO EM 28/12/2015 ÀS 12:30 POR  EM NOTÍCIAS

Por José Luiz Gomes, cientista político, especial para o Blog
Em nossa mensagem aos amigos(as), nesta data do ano, pedi que fizéssemos uma reflexão sobre o problema da intolerância, que parece ter tomado conta do país, do Norte ao Sul. Praticamente todos os dias estão sendo registradas cenas como aquela protagonizada pelos jovens de classe média do Leblon que agrediram o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Os petistas e simpatizantes do partido estão sendo agredidos nas ruas, nas livrarias, nos saguões de aeroportos, nos restaurantes. A presença de várias etnias superlotando esses saguões de aeroportos, nessa época do ano – numa evidente demonstração das oportunidades sociais proporcionadas pela Era dos Governos de Coalizão Petista – pouco consegue aplacar a ira de alguns segmentos sociais sobre a suposta associação do partido aos casos de corrupção investigados no país.
Dada a enorme repercussão do episódio nas redes sociais, muita coisa já foi escrita sobre o assunto, com Rolezinho programado – onde mais de 8 mil pessoas já confirmaram presença – além da solidariedade da atual presidente Dilma Rousseff, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Da solidariedade dos amigos e admiradores, o compositor Chico Buarque não pode se queixar. Até nessas horas – ou sobretudo nelas – o status social do indivíduo conta bastante. Pierre Bourdieu inquieta-se na tumba, dizendo: eu tinha razão. Um internauta observou, não sem alguma razão, que a assessoria da presidente Dilma não teve a mesma agilidade em informá-la sobre a necessidade de manisfestar solidariedade às famílias daqueles 05 jovens chacinados, na periferia do Estado do Rio de Janeiro, por integrantes da Polícia Militar. Até o fez, mas não com a mesma agilidade com que manifestou solidariedade ao cantor.
Há também alguns exageros por aqui, como a conclusão de que o ato poderia representar a gota d’água para o fechamento desse círculo em torno das mobilizações que pedem o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Nada nos sugere – muito menos isso – que 2016, seja um ano sem as conhecidas turbulências econômicas políticas que marcaram o ano de 2015. Infelizmente. Um outro exagero são as chamadas “carteiradas”, do tipo: Você sabe com quem está falando? Chico é um compositor, um cantor e escritor consagrado. Quem são seus agressores? filhinhos de papai, playboys do Leblon. Essas carteiradas aproximam o compositor muito mais do antropólogo Roberto DaMatta do que propriamente do seu pai biológico, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda.
Não seria de bom alvitre criticar a intolerância que recrudesce no país, usando do mesmo expediente, o que contribui, isto sim, para o agravamento do problema, remetendo-o às consequências previsíveis. Falta muito pouco, pois todas as condições estão dadas, para as agressões físicas começarem a ocorrer entre petistas e não-petistas, como bem observou o senador Cristovam Buarque, numa carta endereçada ao cantor. Isso se restringirmos essa disputa entre petistas e não-petistas, pois, se ampliarmos essas manifestações de caráter fascistas para outros segmentos sociais – como homossexuais e grupos religiosos – elas já atingiram esse estágio. Isso é tão sério que alguns grupos na internet postaram alguns vídeos com supostas ilações sobre a homossexualidade de um dos agressores do cantor, numa manobra para desqualificá-lo pela condição de sua opção sexual.
Repetiu-se com Chico essa onda de agressividade e intolerância dirigida àquelas pessoas diretamente vinculadas ou simpatizantes do PT. Absurdo a proporção que isso vem assumindo no Brasil, dando razão àqueles observadores que afirmam que o monstro do fascismo já está solto entre nós. Antes que nos crucifiquem – um pouco antes da data – desejo informar que não compactuo com os possíveis equívocos do PT na condução da máquina pública, tampouco recebo qualquer tipo de remuneração para defendê-lo, como, normalmente, os comentadores costumam sugerir.Aliás, aqui não há uma defesa do PT, mas dos princípios da convivência democrática que deve prevalecer na relação entre as pessoas.
Na realidade, nossa preocupação é com essa “onda de intolerância” que tomou conta do país, que pode nos conduzir a índices de violência intoleráveis. Como poderemos conviver sem a aceitação do outro, intransigentemente rejeitando opiniões diversas da nossa ou deixando de se orientar por princípios ou regras que nos conduzam à construção de consensos? Seria a volta da barbárie, do Estado Hobbesiano. Pai, afasta de nós esse cálice fascistoide.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Crônicas do cotidiano: Michel Maffesoli no Museu do Homem do Nordeste



José Luiz Gomes da Silva


No dia 05 de novembro de 2013, o sociólogo francês Michel Maffesoli esteve no Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, proferindo uma palestra intitulada: "Pós-modernidade e o retorno das emoções coletivas". Maffesoli elegeu o Brasil como um grande laboratório de suas pesquisas. Há quem afirme que, sem o Brasil, o sociólogo não teria atingido o status intelectual que ostenta dentro e fora da academia, daí a importância desse objeto de estudos para a sua sólida produção acadêmica. Maffesoli se insere dentre da mais conceituada estirpe de brasilianistas franceses. Na sua opinião, a cultura da sociedade brasileira sempre o colocou como um país pós-moderno, que não experimentou a transição das categorias da modernidade. 


Instigado a pronunciar-se sobre os movimentos de rua que sacudiram o país a partir de junho, que ficariam conhecidos como as "Jornadas de Junho", afirmou que se tratava de um "Maio de 1968 pós-moderno". "Coxinhas" "Black Bloc", "Mídia Ninja" "Partido Pirata" e todas as tribos estiveram presentes em sua palestra, como sempre. Numa conferência como a do professor, vários links poderiam ser gerados, como, de fato, pelo pronunciamento da platéia, isso foi verificado. Houve um momento em que o professor, perguntado como se mantém informado sobre o Brasil, disse que mantinha seus "espiões" aqui, que sempre o abastece com informações atualizadas sobre o que está ocorrendo com o país. 

Supõe-se que esses "espiões" estejam infiltrados na academia, onde os fundamentos teóricos do sociólogos são replicados através de núcleos de estudos, fundados, por vezes, por ex-orientandos seus. Como diria os cronistas esportivos, o estádio veio abaixo. Há duas razões para o riso. Um deles, naturalmente, diz respeito à onda de espionagem reinante, orquestrada sobretudo pelos EUA, envolvendo, inclusive, autoridades brasileiras, o que vem gerando alguns constrangimentos diplomáticos. Outra razão é que no dia de ontem, uma longa matéria de um jornal do Sudeste aponta a existência de um agente do serviço de espionagem francês em Alcântara, onde ocorreu aquele acidente com a plataforma de lançamento de foguetes, que matou dezenas de cientistas brasileiros que trabalhavam no projeto. Aliás, nossos mais bem-preparados cientistas no assunto. 

A possibilidade de sabotagem nunca foi totalmente descartada. Maffesoli, certamente, não lê uma das nossas mais comentadas revistas nacionais, mas a polêmica em torno de duas de suas reportagens desta semana, certamente o interessariam no contexto de suas abordagens. Uma delas diz respeito ao "coxinha" que está ganhando rios de dinheiros e gastando em baladas para a rapaziada bem-nascida, ostentando carrões e champanhes caríssimos, acompanhados de algumas beldades. É luxo só. É lixo só. Se existia algum fundo do poço, a publicação chegou lá. O sociólogo, durante a palestra, informou que teve a curiosidade de investigar a etimologia da palavra "luxo". 

O senso-comum, de imediato, associaria o termo à luxúria, ao prazer. Não é bem assim. A origem da palavra está associada à luxação, contusão, portanto, a uma situação disfuncional. Embasado nesse raciocínio ele vai observar a ampliação do fosso que separa a elite do povo, consolidando uma dicotomia que vem produzindo uma série de problemas sociais. Embora a abordagem da revista semanal à qual fizemos alusão parece desejar anunciar às elites que elas precisam tomar cuidado com o cerco da periferia pobre e marginalizada - bem ao estilo de sua linha editorial - o fato é que as atitudes de nossas elites e os "amortecedores sociais" têm sido insuficientes para "viabilizar" esses contingentes sociais, dotando-os de uma educação de boa qualidade para os seus objetivos e padrões, assistência médica, acesso à inclusão produtiva etc. Se medidas não forem adotadas para minimizar esse "fosso" - um problema histórico no país - corremos um sério risco do agravamento das convulsões sociais. 

As mobilizações de rua já expuseram isso, mas nada, absolutamente nada, é conduzido ou pensado avaliando concretamente essa situação, na observação do sociólogo, "disfuncional". São projetos de mobilidades pensados para quem tem carro, intervenções habitacionais do tipo "higienistas" - como lembrou um colega de trabalho - isolando os empobrecidos em conjuntos habitacionais longe dos grandes centros urbanos, corroendo suas possibilidades de "afetos sociais" e estratégias de sobrevivência etc. Eu não vou me alongar muito porque, nesses momentos, costumo escrever com o coração. O Brasil, no entanto, precisa de espiões com a agudeza de análise e a sensibilidade social de Maffesoli. 

Na década de 70/80 brasilianistas americanos que vinham estudar o Brasil foram "taxados" de espiões da CIA. Um dos mais reputados deles, Thomas Skidmore, quando questionado sobre o assunto, costumava afirmar que não havia sido a CIA que o matriculou na disciplina. Havia decidido estudar o Brasil, porque as outras disciplinas oferecidas não dispunham de vagas.

P.S.: Escrita logo após a exposição do sociólogo, peço perdão por alguns dados que podem não estar atualizados, assim como algumas referências hoje "caducas". 



O xadrez político das eleições municipais de 2016, em Recife: Acordos em Brasília podem "ajustar" as relações entre PT e PCdoB no Recife e em Olinda.




Os socialistas tupiniquins sempre afirmam que não acreditam numa candidatura própria dos tucanos no Recife. A afirmação decorre de uma possível aliança entre socialistas e tucanos, no plano nacional, o que poderia refrear as ambições locais de alguns líderes da agremiação. Aliás, um outro fator adverso a essa candidatura é que alguns tucanos integram o Governo do senhor Geraldo Júlio(PSB). Se, no ninho tucano, esta possibilidade de uma candidatura própria continua uma incógnita, arranjos políticos celebrados entre os petistas e os comunistas, no plano nacional, certamente, terão reflexos nas alianças entre as duas legendas, nas eleições municipais de 2016, tanto em Recife quanto em Olinda, hoje praticamente uma disputa em quadra ampliada. 

O PCdoB foi um dos principais fiadores das articulações com o propósito de segurar o mandato da presidente Dilma Rousseff. A questão ainda está longe de ser definida, mas o esforço empreendido pela legenda na defesa da presidente caiu como chuva em tempos de insegurança hídrica no Planalto. O esforço na defesa da presidente Dilma empreendido pela legenda foi, sem dúvida, maior do que o esforço do PT, hoje uma legenda que apresenta uma profunda crise de identidade, já com algumas fraturas expostas. Aliás, é voz corrente não apenas na academia, mas também para diversos setores sociais, a conclusão de que o PT acabou. Foi "engolido" pelas contingências políticas de um presidencialismo de coalizão - onde precisou juntar-se a tudo quanto não presta da política nacional -; abandonou o trabalho de base e sucumbiu ao aparelhamento da máquina; seus membros se envolveram em casos de corrupção, desfazendo a utopia da "ética na política"; enfim, tornou-se mais do mesmo. 

Está ocorrendo um caso emblemático em todo o Brasil. O partido acusa a saída de lideranças, sobretudo jovens, da agremiação. Essa tendência parece ser nacional. Uma das justificativas - de certa forma esquizofrênica - é que há partidos que hoje defendem melhor Dilma do que o próprio PT. Pelo menos o PCdoB confirma essa hipótese. Por falar em defesa da presidente, a Deputada Federal do PCdoB, Luciana Santos, foi às ruas defender o mandato da presidente Dilma Rousseff, aqui no Recife. Luciana Santos, aliás, é um dos principais trunfos dos comunistas para continuarem a administração da Marim dos Caetés, cidade que já governam por 16 anos. 

O desgaste é evidente é até já se anunciou uma possível ruptura do PT com a gestão de Renan Calheiros. Atores políticos relevantes - como é o caso do vereador Marcelo Santa Cruz e do vice-prefeito Arantes - não seguem a orientação do executiva municipal da legenda. Agora, diante dos arranjos em Brasília, é bem possível que as coisas se acomodem e a nossa Deputada Teresa Leitão, mais uma vez, veja uma possível candidatura ser  preterida em torno do apoio ao projeto dos comunistas de tornarem a cidade uma bastião comunista. Continua sendo a prioridade das prioridades para a legenda comunista. 

Esse arranjo também deve influir nas eleições do Recife, onde, pelas últimas pesquisas de intenção de voto, o ex-prefeito da cidade, por dois mandatos, João Paulo, aparece em segundo lugar na disputa, com 25% das intenções de voto. Como já dissemos em outra ocasião, é uma verdadeira bala de prata ou último cartucho do ex-prefeito. Não será uma tomada de decisão muito fácil. Os militantes terão que esperar as inúmeras consultas ao seu astrólogo. afinal, se ele perder essas eleições, pode encerrar sua carreira política. O vice-prefeito do Recife, que é do PCdoB, Luciano Siqueira, continua observando a água do mar bater nas pedras e tentando decifrar a mensagem das espumas. Não emite o menor sinal para onde deve caminhar em 2016. Se é que vai caminhar. 

O que não se pode negar é que o prefeito Geraldo Júlio, naquilo que pode, tentar facilitar as decisões do seu vice. Nas entrevistas concedidas, não deixa de apontar os equívocos do PT na condução da máquina pública federal, enfatizando que os problemas do Recife estão diretamente relacionados. Reproduzindo um pouco dessa confusão da legenda socialista em relação ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff - onde membros da legenda já se pronunciaram contra - ele, o prefeito, levanta a bandeira do impeachment. Não sem um certo exagero, alguns viram nessa atitude uma espécie de suicídio político.Logo, Luciano Siqueira terá que tomar uma decisão a esse respeito.  


Intolerância: Pai, afasta de nós esse cálice




José Luiz Gomes


Em nossa mensagem aos amigos(as), nesta data do ano, pedi que fizéssemos uma reflexão sobre o problema da intolerância, que parece ter tomado conta do país, do Norte ao Sul. Praticamente todos os dias estão sendo registradas cenas como aquela protagonizada pelos jovens de classe média do Leblon que agrediram o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda. Os petistas e simpatizantes do partido estão sendo agredidos nas ruas, nas livrarias, nos saguões de aeroportos, nos restaurantes. A presença de várias etnias superlotando esses saguões de aeroportos, nessa época do ano - numa evidente demonstração das oportunidades sociais proporcionadas pela Era dos Governos de Coalizão Petista - pouco consegue aplacar a ira de alguns segmentos sociais sobre a suposta associação do partido aos casos de corrupção investigados no país. 

Dada a enorme repercussão do episódio nas redes sociais, muita coisa já foi escrita sobre o assunto, com Rolezinho programado - onde mais de 8 mil pessoas já confirmaram presença - além da solidariedade da atual presidente Dilma Rousseff, e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Da solidariedade dos amigos e admiradores, o compositor Chico Buarque não pode se queixar. Até nessas horas - ou sobretudo nelas - o status social do indivíduo conta bastante. Um internauta observou, não sem alguma razão, que a assessoria da presidente Dilma não teve a mesma agilidade em informá-la sobre a necessidade de manisfestar solidariedade às famílias daqueles 05 jovens chacinados, na periferia do Estado do Rio de Janeiro, por integrantes da Polícia Militar. Até o fez, mas não com a mesma agilidade com que manifestou solidariedade ao cantor.

Há também alguns exageros por aqui, como a conclusão de que o ato poderia representar a gota d'água para o fechamento desse círculo em torno das mobilizações que pedem o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Nada nos sugere - muito menos isso - que 2016, seja um ano sem as conhecidas turbulências econômicas políticas que marcaram o ano de 2015. Infelizmente. Um outro exagero são as chamadas "carteiradas", do tipo: Você sabe com quem está falando? Chico é um compositor, um cantor e escritor consagrado. Quem são seus agressores? filhinhos de papai, playboys do Leblon. Essas carteiradas aproximam o compositor muito mais do antropólogo Roberto DaMatta do que propriamente do seu pai biológico, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda. 

Não seria de bom alvitre criticar a intolerância que recrudesce no país, usando do mesmo expediente, o que contribui, isto sim, para o agravamento do problema, remetendo-o às consequências previsíveis. Falta muito pouco, pois todas as condições estão dadas, para as agressões físicas começarem a ocorrer entre petistas e não-petistas, como bem observou o senador Cristovam Buarque, numa carta endereçada ao cantor. Isso se restringirmos essa disputa entre petistas e não-petistas, pois, se ampliarmos essas manifestações de caráter fascistas para outros segmentos sociais - como homossexuais e grupos religiosos - elas já atingiram esse estágio. Isso é tão sério que alguns grupos na internet postaram alguns vídeos com supostas ilações sobre a homossexualidade de um dos agressores do cantor, numa manobra para desqualificá-lo pela condição de sua opção sexual. 

Repetiu-se com Chico essa onda de agressividade e intolerância dirigida àquelas pessoas diretamente vinculadas ou simpatizantes do PT. Absurdo a proporção que isso vem assumindo no Brasil, dando razão àqueles observadores que afirmam que o monstro do fascismo já está solto entre nós. Antes que nos crucifiquem - um pouco antes da data - desejo informar que não compactuo com os possíveis equívocos do PT na condução da máquina pública, tampouco recebo qualquer tipo de remuneração para defendê-lo, como, normalmente, os comentadores costumam sugerir.Aliás, aqui não há uma defesa do PT, mas dos princípios da convivência democrática que deve prevalecer na relação entre as pessoas.  

Na realidade, nossa preocupação é com essa "onda de intolerância" que tomou conta do país, que pode nos conduzir a índices de violência intoleráveis. Como poderemos conviver sem a aceitação do outro, intransigentemente rejeitando opiniões diversas da nossa ou deixando de se orientar por princípios ou regras que nos conduzam à construção de consensos? Seria a volta da barbárie, do Estado Hobbesiano. Pai, afasta de nós esse cálice fascistoide. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pezão, Dilma e Chico




O governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, em função das dificuldades financeira da máquina pública, anunciou que irá parcelar o 13º dos servidores públicos do Estado. A medida, anunciada aos apagar das luzes do ano de 2015, certamente, além de pegar de surpresa os servidores, levará os mesmos a planejarem o ano de 2016 no espírito das vacas magras, cortando "gorduras" aqui e ali no orçamento familiar. Todos nós sabemos das dificuldades de financiamento da máquina pública em todos os níveis. Que o gestor público adote medidas de austeridades nos gastos, também é compreensível. O que torna essa compreensão bastante difícil são as "prioridades" estabelecidas por esses governantes no que concerne às despesas da máquina. 

Alguns negócios do Estado com a iniciativa privada estão absolutamente blindados, não sendo afetados por nenhuma medida de austeridade. No caso do Rio de Janeiro, o governador Pezão resolveu assumir a conta de energia da Supervia, além de ter adotado medidas de isenção fiscal vultosas a grandes empresas que se instalaram no Estado. De acordo com o jornalista Cid Benjamin, um escândalo de proporções gigantescas. Aqui no Estado, faltam recursos para concluírem as UPAs e mantê-las em funcionamento, mas os compromissos com a construtora da Arena Pernambuco - um verdadeiro elefante branco - são regiamente honrados. E olha que isso representa uma verdadeira sangria aos cofres públicos. Como diria aquele sanfoneiro que deixou de receber o seu cachê - citado ontem aqui pelo cientista político Michel Zaidan - é nesta "pisada" que os neo-socialistas "tocam" o Estado. Ainda no Governo do ex-governador Eduardo Campos, recursos do programa Chapéu de Palha também foram contingenciados para honrar os compromissos com a PPP da Arena da Copa. 

Dilma parece ter ouvido os conselhos aqui do blog e resolveu cancelar o tradicional descanso de final de ano, normalmente reservado para a Base de Aratu, na Bahia. Não se pode ter sossego com um conspirador como Eduardo Cunha(PMDB) por perto. Ela alegou motivações econômicas, mas penso que sua preocupação seja mais política mesmo. Ontem Cunha foi recebido pelo pessoal do STF. Desejava uma reunião às portas fechadas, onde os ministros daquela corte pudessem "desenhar" para ele como seria o rito de tramitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A imprensa foi convidada, impedindo as conversas de alcovas que, certamente, levaram Eduardo Cunha a pedir a audiência com os ministros. 

E Chico Buarque, em gente? As agressões sofridas pelo cantor e compositor Chico Buarque, alcançaram enorme repercussão aqui pelas redes sociais. Repetiu-se com Chico essa onda de agressividade e intolerância dirigida àquelas pessoas diretamente vinculadas ou simpatizantes do PT. Absurdo a proporção que isso vem assumindo no Brasil, dando razão àqueles observadores que afirmam que o monstro do fascismo já está solto entre nós. Outro dia publicamos um artigo num blog local, logo depois do fracasso das manifestações pró-impeachment. O que li nos comentários de impropérios e agressividades não estavam em nenhum gibi. Os "coxinhas" destilavam ódio nas suas expressões, numa evidência de que, se estivesse por perto, seria, certamente, agredido até fisicamente. Essa engrenagem odiosa, estimulada por alguns setores irresponsáveis e inconsequentes da mídia, precisa ser contida urgentemente. 

Os petistas estão sendo agredidos nas aeroportos, nas ruas, nas livrarias, nos restaurantes e, pasmem, até mesmo nas repartições públicas. Identificar-se ou professar a defesa do Governo Dilma Rousseff pode ser hoje motivo para o indivíduo sofrer constrangimentos e hostilidades. Este blog não recebe um centavo de patrocínio de qualquer órgão público, mas, a julgar pelas ilações, o editor já teria comprado um apartamento em Paris. A referência,naturalmente, diz respeito às observações dos filhinhos de papai que agrediram Chico, acerca de um suposto apartamento que o cantor mantém em Paris, perfeitamente compatível com os rendimentos que recebe como cantor, compositor e escritor. Pai, afasta de nós esse cálice fascistoide.   

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Caso Chico Buarque: A fúria dos que saíram do armário

Essa direita troglodita ataca à traição. E sabe que figuras públicas não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.


Eric Nepomuceno
Reprodução
O que mais impressiona – e preocupa – na agressão verbal que um grupo de garotões cuja profissão principal é ser filho de pai rico lançou contra Chico Buarque na noite da segunda-feira, 21 de dezembro? Três coisas. Primeiro, a extrema fúria dessa direita desgarrada que acaba de sair do armário embutido. Segundo, a facilidade com que repetem o que dizem os grandes meios de comunicação. E terceiro, a incapacidade para qualquer gesto minimamente civilizado.
Chico saía de um jantar com amigos quando, ao buscar um táxi, passou a ser chamado de ‘petista’. Ouviu a repetição de clichês idiotas repetidos à exaustão pelos meios de incomunicação e pelos deformadores de opinião. A um dos garotões ele respondeu com humor. Dizia o valentão que defender o PT quando se mora em Paris é fácil. ‘Você mora em Paris?’, perguntou Chico. E o rapaz respondeu: “Não, quem mora em Paris é você!’. Chico, então, perguntou: ‘Você andou lendo a Veja?’. A ironia continua sendo uma válvula de escape. Mas para ter ironia é preciso inteligência, artigo definitivamente raro na praça.




Não foi a primeira nem a décima agressão verbal que ele e seus amigos ouvem, todas relacionadas ao PT, a Lula e a Dilma. O mais recomendável é, sempre, fazer ouvidos moucos. Mas também essa regra tem suas exceções. O episódio de segunda-feira foi inevitável: Chico estava no meio da rua, é pessoa pública, reconhecível a milhas marítimas de distância.

Mais grave é saber que não foi a primeira nem a decima ocasião, e também não terá sido a última. O país está polarizado como poucas vezes esteve nos últimos 50 ou 60 anos. O grau de agressividade, de furiosa intransigência dessa direita recém-saída de um imenso armário – certamente embutido – é o que mais chama a atenção. E preocupa. Muito. Dizer na cara de alguém ‘Você é um merda’ pode ter consequências sérias. Chico sabia e sabe que qualquer reação à altura não faria outra coisa que atiçar ainda mais a fúria dessa direita desembestada, fartamente alimentada pela grande imprensa. Até nisso a direita recém assumida em sua verdadeira essência é covarde. Até quando?

O país se acostumou às tristes cenas de violência entre torcidas organizadas no futebol. Elas pelo menos têm a decência de se uniformizar, ou seja, é fácil identificar o adversário à distância.

Essa direita troglodita, não. Ataca à traição. E sabe que figuras públicas como as que foram atacadas à sorrelfa não costumam reagir, para não alimentar a sede mesquinha dos escrevedores de intrigas.

Há poucos registros, que eu me lembre, de alguém que tenha saído do armário com tanta sede de ação. Cuidado com eles: tantas ganas reprimidas, quando subitamente liberadas, desconhecem limites.


Eric Nepomuceno é jornalista e escritor, estava com Chico no episódio relatado
(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)



Créditos da foto: Reprodução



Michel Zaidan Filho: O sanfoneiro, o gestor e a arena




O cantor, compositor e sanfoneiro Alcymar Monteiro queixou-se, em carta aberta publicada pelos jornais, de que o senhor governador do Estado não estava pagando cachês devidos ao longo da programação de festas durante este ano. Não é a primeira vez que os artistas contratados pela gestão do PSB põe a boca no trombone, cobrando dívidas ao governo do Estado por relevantes serviços culturais prestados ao povo pernambucano. Isso levou a uma crise, na gestão do deputado Silvio Costa Filho, com denúncias de superfaturamento nas notas fiscais etc.

O sanfoneiro tem suas razões. Ele vive disso. Tira seus sustento dessas apresentações ao longo do calendário festivo do Estado. Errada está a política cultural deste governo em tratar os artistas (e não só os populares) como clientes ou funcionários da administração estatal, gerando uma relação viciada de troca de favores que permite, inclusive, não pagar os cachês prometidos por cada apresentação. O artista, com medo de perder “a boquinha” oficial, fica calado, arcando com o ônus dessas apresentações.

Mais grave do que o modelo clientelista de gestão da cultura e da relação com os produtores culturais (que às vezes se comportam como pedintes e reivindicantes perante a gestão) é a prioridade do gasto público estabelecida pelo gestor: o que é prioritário no ordenamento de despesas, pelo governo, no Estado de Pernambuco? – A saúde? – A educação? – A segurança pública? – O tratamento da rede de esgotos? -  O transporte público? Ou a folia, a festa, o circo? – Pois é. Para o pagamento da obra faraônica chamada de “Arena Pernambuco”, não falta nada. Nem um centavo sequer. Pode o governo nem repassar para os times a receita prometida para compensar as bilheterias deficitárias e a ausência de público no estádio, mas as parcelas de empréstimo contraído - através de PPP-  para o pagamento da feitura da obra são religiosamente pagas, sem atraso, sem mora nem abatimento. É o caso de se perguntar: quem se beneficia dessa ordem de prioridade do dinheiro público? Quem ganha e quem perde com esse modelo perdulário e injusto de gestão?

Num momento de crise, em que se discute inclusive a flexibilização com os gastos obrigatórios do governo federal com saúde, educação e outras rubricas, o juízo da população contra esse modelo ruinoso de escassos recursos públicos, não pode ser senão de repúdio e indignação. A uns, tudo. Ao povo, o circo – sem o pão.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A entrevista do governador Paulo Câmara




Os pernambucanos que tiveram a oportunidade de ler o Diário de Pernambuco em sua edição de ontem, dia 20, se depararam com uma daquelas entrevistas características dessa época do ano, onde os governantes são os entrevistados pelos principais jornais do Estado. Desta vez, o Diário ouviu o governador do Estado de Pernambuco, senhor Paulo Saraiva Câmara. O jornal da antiga praça da Independência tem uma longa história no Estado, constituindo-se, inclusive, como um ator relevante na própria instituição do conceito de região Nordeste. Não apenas pela famosa série de artigos publicados pelo sociólogo Gilberto Freyre, ainda como estudante nos Estados Unidos - segundo Durval Muniz, uma verdadeira certidão de nascimento de uma região - mas por suas posições ativas em diversos momentos históricos do país, assim como por sua área de abrangência ou influência, que ajudou a circunscrever, geograficamente, os limites territoriais da região Nordeste. 

Tudo isso está muito bem explicado numa postagem nossa, num outro blog, dedicado à pesquisa escolar. Lá, os leitores poderão ter uma dimensão da importância deste jornal secular. Agora, no entanto, convém estabelecer algumas considerações mais atuais, sobretudo no que concerne à linha editorial adotada pelo DP, certamente, determinada pelos seus atuais proprietários.  Um grupo ligado a um ex-Deputado Federal, hoje vinculado aos neo-socialistas da província, segundo se sabe, é um dos principais acionistas do jornal. Essas entrevistas com os governantes, nessa época do ano, normalmente, são muito comportadas. No que se refere a esta última, publicado pelo DP, poder-se-ia afirmar, sem exagero, que foi uma entrevista comportada demais. Está mais para um relatório de gestão, onde o governante torna-se suspeito para fazer sua avaliação unilateral, sem o contraditório que uma imprensa livre poderia levantar. 

Foram três páginas, todas construídas por um discurso que, ao final, leva o leitor a apenas suspirar, com a leve sensação de quem não entendeu nada do que foi dito ou, pior, pedindo para ser beliscado, certo de que estava nas nuvens, quiçá sonhando. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, no livro Além do Bem e do Mal, tem uma frase que se tornou célebre nos manuais de análise de discurso: Toda palavra é uma máscara e todo discurso é uma fraude. Penso que essa máxima se aplica perfeitamente à entrevista concedida pelo senhor governador Paulo Câmara ao Diário de Pernambuco. 

Trata-se, na realidade, de um emaranhado de informações, em áreas de competência quase que exclusiva do Estado, como saúde, educação e segurança pública, onde são enumeradas o conjunto de ações do aparelho de Estado para cada setor específico, como contratação de efetivo, melhoria de alguns indicadores de educação, um campeonato de robótica e até a construção de uma unidade de saúde pública em Goiana, na região da Mata Norte do Estado. Sobre, até que ponto, o conjunto dessas ações estão contribuindo num contexto mais amplo, para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e das cidadãs pernambucanas, nenhuma palavra. E a gente sabe que a nossa vida não melhorou nessa gestão.

Os entrevistadores, tanto quanto possível, evitaram aquelas perguntas que poderiam desvelar a cruel realidade vivida pelo Estado, nessas áreas de sua competência. Aliás, salvo os "indicadores" apresentados pelo próprio governador, senti falta dos indicadores de cidadania, como os índices crescentes de violência - solapando as metas do Pacto pela Vida -; o número de bebês mortos ou acometidos pela microcefalia, uma doença transmitida pelo mosquito aedes aegypti - cujo Estado lidera o número de casos em todo o país. Esses indicadores de cidadania bem que poderiam ser apresentados pelos repórteres que o entrevistaram. 

De acordo com o jornalista Fernando Castilho, do JC, o Governo de Pernambuco anunciou que deixará de concluir e e colocar em funcionamento 06 UPAS. Elas custariam aos cofres públicos algo em torno de 180 milhões/ano. Por outro lado, liberou 54 milhões para o cumprimento do contrato de Parceria Público Privada com a construtora da Arena Pernambuco. Somente este ano, o Estado já injetou 147,8 milhões para honrar esses compromissos, numa verdadeira inversão de prioridades. Essas questões, que dizem respeito sobre as prioridades no gasto do dinheiro público, não foram levantadas para o nosso governador.   

Silvio Costa X Jarbas Vasconcelos: Esse "cozidão" ainda irá azedar.



O "debate" em torno do pedido do impeachment da presidente Dilma Rousseff está produzindo algumas situações inusitadas aqui na província, reveladora do caráter e das verdadeiras intenções de alguns atores políticos. Há também contradições insustentáveis, como, por exemplo, a presença do Deputado Federal Silvio Costa, vice-líder do Governo Dilma, nos famosos "cozidos" promovidos pelo também Deputado Federal Jarbas Vasconcelos(PMDB), um conhecido apologista do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Pelo andar da carruagem política, esse cozido tende a azedar. Na realidade, esses "cozidos" promovidos por Jarbas Vasconcelos é uma roda política, de interesses bem-específicos. No último dele, o Deputado Sílvio Costa foi o primeiro a chegar, segundo noticiado pelos jornais locais. 

Como não havia muitas convergências entre ambos, em nosso artigo semanal de monitoramento das próximas eleições municipais, fizemos alguns comentários sobre as reais motivações do senhor Sílvio Costa. Logo depois, os jornais especularam sobre possíveis movimentações e conversas em torno das eleições de 2016, no Recife, onde o seu filho, Sílvio Costa Filho(PDT), apresenta-se como possível alternativa. Mas, o que mais nos intrigam nesse impasse dos atores provinciano é a banalização desse conceito de "golpe" ao se referirem ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

O conceito é aplicado consoante as conveniências de cada um. O rito do impeachment é perfeitamente compatível no contexto de um regime democrático, desde que satisfeita algumas pré-condições, como elementos concretos de malversações de recursos públicos por parte do dirigente. Como, no caso de Dilma, não há elementos técnicos e jurídicos que respaldem o pedido, a admissibilidade do pedido, então, passou a ser tratada pelos governistas como uma tentativa de golpe. Um golpe institucional, registre-se. A oposição, por razões óbvias, nunca endossou essa tese.

É bom que se diga que, na fala de um dos ministros do STF, ao justificar o seu voto, fica evidente a sua conclusão de que, pela forma como se pretendia dar prosseguimento ao processo, trata-se, de fato, de uma tentativa de golpe. Nos referimos aqui à famosa "Comissão do Cunha". Pois bem. A oposição não gostou das decisões tomadas pelo STF no que concerne ao rito do impeachment. Jarbas Vasconcelos vociferou que, aí sim, estava configurado um golpe, sob o patrocínio do Supremo Tribunal Federal. Na nossa modesta opinião, ao por ordem na casa, na realidade, o STF abortou uma tentativa de golpe. 

Mesmo na condição de um dos convivas do "cozidão', o Deputado Sílvio Costa precisou retrucar Jarbas Vasconcelos, informando-o que ele estava equivocado. O próximo "cozido" da Praia do Janga deverá nos informar sobre a temperatura do termômetro da relação entre ambos. A relação entre ambos, admitida pelo próprio Silvio, sempre teve altos e baixos. Num passado recente, Sílvio teceu duras críticas a Jarbas, depois se derramando em elogios.   

domingo, 20 de dezembro de 2015

Editorial: Governo Dilma Rousseff em equilíbrio instável



A despeito das notícias alvissareiras da última semana - como a decisão do STF sobre o rito do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff; a ligeira recuperação de sua popularidade, apontada por pesquisa do Datafolha; a troca de comando no Ministério da Fazenda, responsável pela condução da política econômica; das mobilizações dos movimentos sociais, populares e sindicais em todo o país, em favor do Governo- na realidade, o caldeirão político continua em plena ebulição na capital federal, colocando a presidente naquilo que, em Ciência Política, denominamos de equilíbrio instável. Não dá para dormir em paz com essas aves de rapina conspirando o tempo todo, apostando no quanto pior melhor, desejosos de apear do poder uma mandatária legitimamente eleita pelas urnas, sem uma motivação concreta, como exaustivamente denunciado por juristas e entidades como a OAB. 

A conjuntura política indica que o Governo Dilma ainda está muito distante de uma recuperação. A presidente Dilma Rousseff​ até pode encomendar os ingredientes da ceia de Natal, convidar os familiares para a confraternização, brincar com o neto - como na foto acima, publicado pelo Jornal Correio Brasiliense -mas, a rigor, está segurando um cabo de guerra, pressionada tanto pela direita, quanto pelos setores que a apoiam. Não dá aqui para dizer que são necessariamente de esquerda os segmentos sociais que a apoiam, uma vez que até partidos ditos de esquerda estão indo às ruas pedir a cabeça da presidente, como é o caso do PSTU e figuras como Renan Calheiros assumem a linha de frente da defesa dessa Governo. 

Depois, convenhamos, definir o que é de esquerda nesse Governo de Dilma, não tem sido uma tarefa das mais fáceis. Esquerda aqui mesmo apenas aquela multidão de pessoas dos movimentos sociais e sindicais que saíram às ruas para manifestar apoio ao Governo. Essas raposas políticas não dormem e irão conspirar durante todo o recesso. Se eu fosse Dilma, ligaria para o Aldo Rebelo e pedia para cancelar aquele tradicional descanso de fim de ano na Base de Aratu. Em pouco tempo, o famigerado Deputado Eduardo Cunha ganhou uma sobrevida na Presidência da Câmara dos Deputados.Uma decepção para aqueles cidadãos e cidadãs brasileiros que torciam que ele não chegasse a 2016 na presidência daquela Casa. 

Como informou Anatólio Julião, em postagem pelas redes sociais, no dia de ontem, é uma cascavel que se escondeu dentro de casa e que ainda não foi encontrada. Como não estamos lidando com conventos e seminaristas, mas com bordéis, um dos principais avalistas do Governo Dilma é o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros que, como informou o cientista político Michel Zaidan, até a cabeleira é falsa.  Infelizmente. É um cabra mais sujo do que pau de galinheiro. Lembro que, certa vez, publicamos, num blog local, um longo artigo sobre o dilema em que nos encontrávamos, tendo como avalista alguém com essas credenciais. O título do artigo era: o Brasil ainda tem jeito. Achei interessante que houve apenas um comentário, em apenas uma única palavra: não.  

Certamente por ser do ramo é que ele teve a coragem do peitar os seus pares, como é o caso do vice-presidente, Michel Temer(PMDB). Engraçado mesmo foi sua afirmação de que o PMDB não tem donos nem é um partido de coronéis. Não mesmo, Renan. De qualquer maneira, o ano de 2016 promete que será de intensas turbulências. Já que estamos no período natalino, vale a referência bíblica sobre o servir a dois senhores. Dilma fez concessões demasiadas aos seus adversários políticos. Entregou a condução da política econômica a um homem de confiança do mercado e dos setores conservadores, como o Joaquim Levy. 

Joaquim queria avançar no austericídio, mas ela ponderava em nome dos políticas sociais do Governo. Há quem assegure que ele deveria radicalizar essas medidas, sob pena de conter a sangria das finanças públicas. Há quem discorde, indicando que Dilma deveria ter seguido um outro caminho, nomeando alguém para imprimir uma outra diretriz às políticas econômicas, como se sugere que Barbosa deverá fazer. Não sou economista, mas já vi gente boa defender uma mudança radical nessas políticas, caso de André Singer que, por suas conhecidas ligações com o Governo, deve saber o que está dizendo. De acordo com Singer, Barbosa deveria ter sido escolhido desde o começo do Governo. Bem ou mal, os apoiadores de Dilma Rousseff defendem essa tese e já afirmaram que ela perderia o apoio popular caso continuasse com Levy e o seu austericídio. 

De concreto, com as políticas de Levy ou sem elas, o que se sabe é que a nossa economia vai muito mal das pernas. Do ponto de vista da condução da política econômica, a opção por Levy teria sido um erro. Do ponto de vista político o maior erro foi esse loteamento do Governo por atores sabidamente de má fama na condução dos negócios públicos, enredando o Estado em casos emblemáticos de corrupção, conforme vem se observando nas investigação da Operação Lava Jato. Aqui, segundo o ex-ministro Ciro Gomes, houve um grave erro, incapaz de ser consertado com a propalada tese de que ninguém combateu mais a corrupção do que este Governo. Se, por um lado, ocorreram avanços no que concerne ao aperfeiçoamento dos instrumentos de fiscalização e controle do Estado, deu-se carta branca à atuação de alguns atores - caso de Rodrigo Janot, da PGU - por outro lado, é uma baita contradição governar com o PMDB e manter uma cruzada de enfrentamento à corrupção.    

sábado, 19 de dezembro de 2015

STF define rito de impeachment, mas adia decisão sobre afastamento de Cunha


A corte estendeu a sessão para definir o rito do impeachment em curso, mas adiou para fevereiro a decisão sobre o pedido de afastamento de Eduardo Cunha.


Najla Passos
José Cruz / Agência Brasil
O Supremo Tribunal Federal (STF) estendeu a sessão desta quinta (17) para além das 20 horas, com o objetivo de concluir o julgamento da Ação Preceito Fundamental, movido pelo PCdoB, que questionava a legalidade do rito adotado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na condução do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que ele acolheu no último dia 2.
 
Mas deixou para fevereiro, quando a corte voltar do recesso, a análise do pedido de afastamento de Cunha, feito pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, na noite de quarta (18). De acordo com Janot, o presidente da Câmara vem se utilizando do cargo para atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato e retardar o processo da sua cassação, sob exame do Conselho de Ética da casa.


Rito do Impeachment
 
A decisão do STF sobre o rito do impeachment favorece a presidenta Dilma, na medida em que dá maior protagonismo ao Senado, casa em que o governo conta com maior número de aliados, inclusive o seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL). Por 8 votos a 3, o tribunal decidiu que o Senado pode ou não acatar a decisão da Câmara de julgar o impeachment. Conforme a determinação dos ministros, por maioria simples, os senadores podem simplesmente decidir pelo arquivamento do processo antes de afastar a presidente do cargo.
 
Mas a mesma decisão também impede que o governo toque o processo com a velocidade que gostaria, já que, por maioria, os ministros invalidaram a eleição da comissão especial da Câmara que analisará o impeachment. Isso porque a comissão atual foi formada por uma chapa avulsa, de maioria oposicionista, e eleita por voto secreto. Para o STF, os membros da comissão devem ser indicados pelos líderes e todas as votações referentes ao processo devem ocorrer de forma aberta e transparente.
 
Pela decisão, portanto, a corte terá que realizar uma nova eleição para definir a comissão especial que irá julgar o processo de impeachment, processo que só deverá ocorrer após o recesso parlamentar. E isso se Cunha não articular uma nova manobra para fazer prevalecer a sua vontade. Em entrevista coletiva concedida após a sentença, ele questionou vários pontos da decisão e acenou com a possibilidade de recorrer dela.
 
O tribunal definiu também que a presidenta não terá direito a apresentar defesa prévia antes da instauração do processo pela Câmara, já que o direito ao contraditório e à ampla defesa é assegurado na continuidade do processo. E, por fim, decidiu que, após o afastamento da presidenta, para cassar de fato o mandato dela, o Senado precisa contar com a decisão qualificada de dois terços dos seus membros.
 
Ficaram vencidos os ministros Luiz Edson Fachin (relator da matéria), Dias Tofolli e Gilmar Mendes. Em menor extensão, também ficou vencido o ministro Marco Aurélio, que defendeu quórum qualificado para o Senado acatar o julgamento do impeachment, ao invés da maioria simples que saiu vencedora. O voto que congregou maioria e definiu o julgamento foi o do ministro Luís Roberto Barroso.
 
Afastamento de Cunha
 
Já o afastamento de Cunha da presidência da Câmara e do mandato de deputado ficou para ser avaliado só na volta do recesso, que começa neste sábado (19) e vai até o dia 31 de janeiro. O afastamento foi requerido pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na noite da quarta (16). Segundo ele, Cunha vem se utilizando do cargo para atrapalhar as investigações da Operação Lava Jato e para retardar sua própria cassação, sob análise do Conselho de Ética da Câmara.
 
Encaminhado ao ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato, na manhã desta quinta (17), o pedido consta de 190 páginas. Em função disso, Zavascki  anunciou que não terá tempo hábil de analisa-lo antes do início do recesso, marcado para este sábado (19). O ministro não informou se tormará a decisão sozinho. Mas o esperado é que ele a submeta ao plenário da corte, que volta a se reunir a partir do dia 1º de fevereiro.

Crônicas do cotidiano: "Não gosto de você, papai Noel."





Aldemar Paiva morreu aos 89 anos de idade. Alagoano, era um cidadão múltiplo. Poeta, cordelista, jornalista, radialista, ator, cronista, escritor com inúmeros livros publicados. Um dos seus poemas mais conhecidos faz referência ao Natal e, nessa época do ano, por razões óbvias, é bastante invocado: "Não gosto de você, papai Noel." Ainda tive a oportunidade de vê-lo recitar esse poema num dos auditórios da Fundação Joaquim Nabuco, antes de sua apresentação, tivemos a oportunidade de manter um diálogo bastante interessante sobre a origem desse poema, além de sua rotina de criação, uma verdadeira aula sobre como escrever crônicas, um gênero que sempre gostei muito.  

Hoje, com a família, tive a oportunidade de acompanhar a programação infantil que a minha filha caçula acompanha pela TV. Nesse período, há um festival de programação toda voltada para o tema, sobretudo na TV paga. Pois bem. Em todos os programas, invariavelmente, a mensagem (ideologia) que se passa sobre o "não receber presente" está relacionada ao mal comportamento, ou seja, a criança não recebe o presente porque se comportou mal, foi uma criança rebelde, desobediente, mal-educada e outros adjetivos do gênero. Não sei se vocês repararam, mas o sistema tem sempre razão e a culpa é toda indutada ao indivíduo. 

No poema de Aldemar Paiva fica evidente as agruras de um pai empobrecido, incapaz de proporcionar um presente ao seu filho. Fiquei imaginando a lógica perversa de um sistema que é capaz de provocar uma maldade tão atroz. Quer dizer, então, que todas as crianças pobres - aquelas cujos pais não reúnem condições de presenteá-las - são crianças ruins, más, indolentes, que não fazem jus ao "sistema de recompensas"? Uma perversidade do sistema capitalista que, certamente, produzirá traumas às crianças que não participam desse "fetiche" consumista imposto pelo capital, nessa época do ano.



Como a economia não vai bem das pernas, os comerciantes já anteveem a possibilidade de um Natal magro este ano. Sem presentes e, talvez até mesmo sem a presença dos tradicionais queijos do reino e do peru. Aliás, estamos terminando o ano em meio a um grande impasse, na condução da política econômica - inclusive com a substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa - e em meio a um imbróglio político que parece não dá trégua à presidente Dilma Roussef, mesmo depois que o STF tentou por ordem na casa. Deixo com vocês o poema completo do Aldemar Paiva.