quarta-feira, 30 de abril de 2014

Deu bode em Petrolina. Polícia Federal no encalço dos shows fantasmas ou superfaturados.


Já comentamos aqui, em outra ocasião, sobre o verdadeiro duto de desvio de recursos públicos engendrados através da contratação de shows para animar as festas em cidades do interior. Possivelmente, há verdadeiras quadrilhas organizadas nessa modalidade de delito. Esses fatos estão ocorrendo em todo o Brasil. Em Pernambuco, até um secretário de turismo estadual perdeu seu cargo em razão de denúncias envolvendo a malversação desses recursos. Aqui existia uma espécie de shows fantasmas. O cara era contratado para apresentar-se numa cidadezinha do interior e por lá nunca aparecia. Não quero fazer ilações descabidas, pois não sei qual seria o envolvimento de alguns artistas nessas maracutaias. Eles poderiam ter seus nomes envolvidos sem que, sequer, tomassem conhecimento. O que se acompanha muito por aqui são queixas de shows realizados, cujos cachês não foram pagos ou são pagos com muito atraso. As quadrilhas organizadas viram nisso uma excelente oportunidade de lesar o erário.O escândalo mais recente é o da cidade de Petrolina, localizada no Sertão do São Francisco. Ontem a Polícia Federal esteve lá recolhendo elementos para apurar os indícios de desvios de recursos. Nas palavras do prefeito Júlio Lóssio(PMDB), erros involuntários podem ter sidos cometidos pelos seus auxiliares. Seria mais ou menos como os fatos que estão ocorrendo na Prefeitura da Cidade do Cabo de Santo Agostinho. Ali foi eleito um prefeito que, segundo dizem, entende muito pouca coisa de gestão pública e graves equívocos estão sendo cometidos. O homem precisaria de um intensivão sobre licitações, pregões, notas de empenho e coisas do gênero. Vamos aguardar o resultado das investigações da Polícia Federal, mas a possibilidade de dolo nas contratações de shows para o último São João de Petrolina, de fato, existem.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Quem foi que disse que comer banana é uma atitude anti-racista?


Rapaz, é impressionante como as coisas vão tomando determinados rumos aqui pelas redes sociais. Rumos, por vezes, perigosos, assim como tem sido conduzido o "debate" sobre a atitude do jogador Daniel Alves. O caso de Daniel Alves vem se transformando numa paródia de humor, numa simples banalização da luta contra o racismo. Já foi apropriada até mesmo pelo sistema, que a incorporou numa bem-sucedida campanha de marketing para vender as camisetas de um oportunista apresentador de televisão. Em entrevista, o jogador afirmar que a sua atitude - analisada por alguns como de protesto - não teve essa conotação. Chamar uma pessoa de cor negra de macaco é uma atitude essencialmente ofensiva, passível de punição prevista em lei. Ponto. A lei deve ser aplicada, na defesa da integridade da pessoa que foi atingida pela ofensa. Naquele caso específico - onde torna-se muito improvável indentificar o autor da façanha - há como aplicar uma punição coletiva, como reversão do mando de campo, perda dos pontos da partida ou multa. Não entendo muito bem de direito desportivo, mas, nos parece que a tendência, hoje, é no sentido de punir a torcida do time que adotou a tal postura de cunho racista aplicando-se uma multa. Aparecer com a família degustando uma saborosa banana não vai resolver o problema e, nem tão pouco poderia ser enquadrada como uma atitude de solidariedade ou pedagógica. O que há de anti-racista em aparecer num vídeo comendo uma banana? Daniel Alves não precisa desses apoios. Aliás, ele afirmou, com todas as tintas, que a atitude desses torcedores já se tornaram banais. O que precisamos, nesse caso, é aprimorar os expedientes de punição. Alguém outro dia, por exemplo, estava lembrando que, apesar desses fatos ocorrerem com certa frequência, não se escuta um único pronunciamento de Pelé sobre o assunto.
Foto de José Luiz Silva.
Foto de José Luiz Silva.

Michel Zaidan Filho: O Neo-desenvolvimentismo da Era Eduardiana em Pernambuco

            
 No último dia 26 deste mês, o Espaço Socialista realizou um grande seminário intitulado: "Outro Pernambuco é possível", diagnósticos e perspectivas, cujo fim era analisar os resultados dos dois mandatos do ex-governador e candidato, e traçar  diretrizes para as eleições estaduais e nacionais de outubro.
                                Uma das mesas tratava especificamente do "neo-desenvolvimentismo" como característica da política econômica empregada por Dilma e pelo ex-mandatário de Pernambuco. Esse é um tema que suscita muitas paixões e discussões acaloradas. Estivemos ou não diante de um ciclo virtuoso de investimentos, emprego e renda, que começou no governo do PT e que ainda continua, como afirma o ministro Aloizio  Mercadante?  Ou estaríamos no fim desse ciclo e experimentando as consequências da crime econômica mundial sobre o país? - Essa é a questão.
 
                               O governo do presidente LULA foi altamente beneficiado pelo "céu de brigadeiro" da economia internacional. Acumulou divisas. Exportou as "commodites". Teve um bom desempenho nos índices de crescimento econômico. Controlou a inflação. Manteve o equilíbrio (com superavit) da balança comercial. Distribuiu renda através de bolsas, aposentadorias e aumento do salário real. Mas a situação mudou, com a posse da presidente Dilma. O "céu de brigadeiro" da economia internacional se foi. Veio uma tempestade iniciada com o estouro da bolha imobiliária norte americana e da crise do euro. Essa crise que atinge diretamente o resto do mundo, dado o grau de interdependencia da economia mundial, foi enfrentada no Brasil com um conjunto de medidas econômicas, chamado de "neo-desenvolvimentismo", em referência à política desenvolvimentista de Getúlio Vargas. Em flagrante oposição ao fundamentalismo fiscal do governo de FHC, que privilegiou o combate a inflação com uma terapia fiscal e financeira (taxa de juros, superavit fiscal  alto, e meta de inflação apertada), o governo Dilma resolveu estimular a economia do país, num contexto de crise internacional, através do financiamento público-estatal de obras de infra-estrutura (o PAC e as obras da COPA), o consumo privado das famílias e a venda de automóveis, casas e eletro-domésticos por meio da isenção do IPI.
Essa estrategia funcionou durante um certo tempo, até atingir sua exaustão com o inadimplimento dos consumidores, o fim da redução do IPI, o encarecimento do crédito, o superávit primário alto, o desequilíbrio da balança de pagamentos, a retomada da inflação, o baixo crescimento econômico e o estrangulamento da infra-estrutura do país (a crise energética, entre outros pontos do estrangulamento).
                          A estratégia neo-desenvolvimentista esgotou-se no endividamento do país e das famílias. No formidável acocho das finanças públicas (44 bilhões de reais) para o pagamento do serviço da  astronômica dívida interna. No aumento do preços administrados. Na volta da inflação. O que constitui, naturalmente, o  principal obstáculo para a reeleição da presidenta. Nem tanto as denúncias de corrupção na Petrobras.
                          Em Pernambuco, a situação não foi muito diferente. Quem vai pagar os custos desse "desenvolvimento" são os contribuintes. Beneficiado, como foi, por essas medidas federais, o ex-governador se comportou como um autêntico "salesman", um vendedor dos ativos da Estado de Pernambuco, através de uma farta e generosa renúncia fiscal e liberalização da legislação de proteção sócio-ambiental. O impacto desse pletora de negócios sobre a população do Estado já se faz sentir. Como uma modalidade "espúria" de política neo-keinesiana", ela só copia um lado da moeda, sem se preocupar com os efeitos danosos sobre o meio-ambiente, as comunidades locais afetadas por esses empreendimentos, a alta do custo de vida, os inúmeros constrangimentos infringidos à população, o desrespeito aos mais comezinhos direitos dos mais pobres e a violência empregada contra a oposição.
 
                         Passada essa quadra (com o fim dos jogos da Copa do Mundo), vamos avaliar se sobreviveremos até as eleições. Aí, teremos um quadro realista das condições sócio-econômicas e ambientais do país e do estado, para escolher que modelo de desenvolvimento queremos para nós.
 
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador e professor da Universidade Federal de Pernambuco. 
 
 
 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ainda o escândalo da Granja Santana

Pelo andar da carruagem política, o Governo do Estado da Paraíba, ainda deve dar muitas explicações sobre o "Escândalo da Granja Santana", nas eleições de 2014. O escândalo ocorreu em 2013, mas está sob investigação dos órgãos de fiscalização do Estado, ainda sem um posicionamento final. O questionamento diz respeito às compras realizadas pela primeira-dama do Estado, Pâmela Bório, para o abastecimento da Granja Santana, uma espécie de segunda residência oficial do Governo. Um cardápio de fazer inveja aos grandes mestres da cozinha. Incluía cauda de lagosta de primeira, bacalhau do porto, carne de carneiro sem osso, filé de peixes - alguns em estado de extinção -, um berço, itens para cama, mesa e banho, além de 460 latas de farinha láctea para consumo em 30 dias. Não lembro agora de todos os itens, mas posso afirmar que, de fato, trata-se de um escândalo, que ganhou dimensões nacionais. Os paraibanos parecem não economizar quando o assunto é gastronomia, sobretudo quando se trata do dinheiro público. Um senador daquele Estado, recentemente, torrou R$ 7.500 reais, bancados pelo Senado Federal, num jantar no Rio de Janeiro. Aos domingos, formam-se filas para a "espera" da "espera" de uma mesa num dos restaurantes mais "chico" - como diria Maria Luísa, minha caçula - de João Pessoa, o Mangai, na orla da praia de Manaíra. Os possíveis adversários do governador Ricardo Coutinho já estão afiando as garras. Talvez o resultado dessas investigações ainda sejam conhecidos em 2014. Não se entende, também, o porque da aquisição de um berço. A última criança nascida na Granja Santana foi o escritor João Suassuna, lá pela década de 20, quando o seu pai foi governador do Estado. A Paraíba, possivelmente, é o único Estado da Federação que possui uma Granja como residência oficial. Talvez seja o momento de reavaliar essa questão.

domingo, 27 de abril de 2014

No Maranhão, Eduardo Campos promete emendar o bigode com Sarney

Numa cidadezinha conhecida como Timon, distante 450 quilômetros da capital São Luiz, no Maranhão, o presidenciável Eduardo Campos, em mais uma de suas conhecidas bravatas, anunciou que, se eleito, o morubixaba José Sarney, um dos símbolos mais emblemáticos do fisiologismo da política brasileira, iria para a oposição. Sarney está entronizado no Estado brasileiro. Possui verdadeiros feudos na República. Um dos exemplos mais visíveis é o Ministério das Minas e Energia, embora sua capilaridade atinja tentáculos bem mais expressivos. É um câncer em estado de metástase, quando se pensa na utopia de um Estado de corte republicano, voltado para o atendimentos das demandas da sociedade e não um Estado patrimonialista, apropriado por meia dúzia de políticos corruptos, manejado consoante os seus interesses particulares. O clã está no comando do Estado do Maranhão a quase 50 anos. O Maranhão apresenta um dos piores indicadores sociais do país. Apesar de uma crise gerada em função da não renovação de seus quadros, o grupo continua manobrando para preservar seus privilégios. Sempre que o PT ameça abandoná-lo, o velho morubixaba emite seus "recados", anunciando que se trata de um mal negócio. É um fato que isso traz alguns prejuízos para o Governo Dilma Rousseff. Um dos maiores adversários dos Sarney naquele Estado é o Deputado Federal Flávio Dino(PCdoB). Um cara sério, integro, que goza da admiração de Dilma Rousseff. Infelizmente, em razão dos acordos nacionais com a legenda, o cara continua pregando no deserto se depender do apoio do PT. Uma engenharia política complexa e nefasta, mas, infelizmente, impossível de rompê-la no contexto estrito da realpolítik, dentro dos parâmetros do presidencialismo de coalizão que caracteriza o Governo brasileiro. Salvo com uma reforma política ou a partir da constituição de novas formulações aliancistas dos partidos do campo progressista. Fora disso, essa conversa de Eduardo Campos é para boi dormir. Duvido muito que ele tenha aquilo roxo para emendar o bigode com os Sarney. Ademais, com seus novos companheiros, quem seria entronizado?

sábado, 26 de abril de 2014

A misteriosa morte de Paulo Malhães.

O coronel Paulo Malhães é uma figura. Uma figura execrável. Após um mês de suas declarações reveladoras sobre os requintes dos métodos de torturas de presos políticos durante a Ditadura Militar, foi assassinado em sua residência, num crime que ainda está sendo investigado pela polícia. Paulo abriu o bico para a Comissão da Verdade do Estado do Rio de Janeiro. Confessou o que se passava nos estertores das casas de tortura, como a de Petrópolis. Paulo é o que se poderia chamar de um militar da linha dura. Mesmo aposentado, no sítio onde morava, mantinha a postura arbitrária que sempre o caracterizou. Em entrevista à Revista IstoÉ, confessou que atirava nos viciados que se atrevessem a fumarem seus baseados nas imediações do seu sítio. Segundo os vizinhos, ouvidos pela revista, o coronel, quando mais jovem, teria comandado grupos de extermínio na região. Muito estranha a morte do coronel, mas, para quem defende que ele poderia ter sido vítima de um crime de "queima de arquivo", como se vê, havia outras pessoas interessadas em sua morte. No caso do Delegado Sérgio Fleury Paranhos, essa possibilidade é mais concreta, uma vez que ele estava dando um "passeio" com os militares quando morreu. O assunto "tortura" continua sendo um grande tabu para os militares brasileiros. Pior que isso somente a postura de alguns civis ligados aos estamentos militares, endossando essas posturas de que se deve passar "uma borracha" no passado. Países do continente, que também tiveram experiências ditatoriais, conseguiram avançar bastante na questão dos direitos humanos dos que foram vítimas desse período. Alguém já teria feito até uma análise psicológica dos militares brasileiros, mas preferimos não entrar nessa seara. Eles ainda mantiveram diversos enclaves autoritários no texto constitucional de 1988 e até mesmo a distribuição das tropas, como afirmava Jorge Zaverucha, continua num alinhamento de quem se preocupa mais com o que ocorre em Brasília do que quem deseja defender a soberania nacional. Se, de fato, há como dar credibilidade à teoria conspiratória, uma coisa que nos intriga é o Cabo Anselmo. Nos idos dos anos de chumbo, foi resgatado pelos militares, aqui em Olinda, quando seria justiçado pelos "companheiros" da Var-Palmares. Nunca foi molestado e permanece vivinho da silva. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A teia de interesses que envenenam o país.


As perguntas que não são feitas nas pesquisas eleitorais


Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer.



Wanderley Guilherme dos Santos
Arquivo

Pesquisas de opinião são orientadas, claro, e as eleitorais não constituem exceção. Se alguém deseja saber quem prefere maçã ou banana deve perguntar justamente isso, sem confundir o pesquisado com as opções de abacaxis e mangas. Muitas pesquisas eleitorais desorientam os entrevistados ao introduzir opções que nada mais são do que abacaxis e mangas, nomes de candidatos sabidamente estéreis no contexto eleitoral efetivo. Obtêm-se antes de tudo uma ideia da dispersão aleatória da preferência eleitoral, não as escolhas sólidas a aparecer com perguntas focadas no que está, de fato, em jogo.  Mas nada impede que se investigue se o freguês é mais afeito a frutas ácidas ou cremosas – um tanto mais geral e inespecífica do que a pergunta anterior.
 
Com maior ou menor generalidade o que importa é que há um mundo de interrogações adequadas ao conjunto das frutas, todas legítimas, respeitadas modestas regras de lógica. Simples, mas esquecido quando os institutos divulgam seus resultados, aceitos com sagrada intimidação. Na verdade, os mesmos tópicos das pesquisas podem ser investigados por inquéritos variados, nada havendo de interdito no terreno do mexerico.

Em pesquisas de opinião são fundamentais a representatividade da amostra dos pesquisados, a correção dos questionários e, concluindo, a leitura dos resultados. É intuitivo que em uma comunidade onde 99% são religiosos o inquérito não pode concentrar-se no 1% restante, exceto se o pesquisador estiver interessado justamente na opinião da extrema minoria de agnósticos que ali vivem. Isto respeitado, tudo bem quanto à representatividade dos números.

Mas a leitura dos resultados pode ser marota. Jogando uma moeda para o ar centenas de vezes, o número de experimentos em que ao cair a moeda mostrará a “cara” tende a ser o mesmo número de “coroas”. Ignorando quando e porque acontece uma ou outra coisa, deduz-se que a probabilidade de dar “cara” ou “coroa” é de 50%, ou seja, metade das vezes uma, metade, a outra. Em certos convescotes essa peculiaridade é chamada de “acaso”.

Mas essa é uma probabilidade diferente da que indica o futuro do clima, por exemplo. As chances de que chova nas próximas 48 horas não é derivada diretamente de uma série de 48 horas do passado, mas das condições em que milhares de 48 horas foram chuvosas: umidade do ar, regime de ventos, formação de nuvens, etc. explicam com relativo grau de precisão (a probabilidade) as variações climáticas. O que justifica o probabilismo é o conhecimento das particularidades associadas ao aparecimento do fenômeno “chuva”, não o mero fato de sua repetição. 

Pois a probabilidade derivada de uma série de pesquisas eleitorais é análoga à do jogo “cara” ou “coroa”, não à dos prognósticos atmosféricos. De onde se segue serem um tanto marotas as previsões de resultados eleitorais apoiadas em séries históricas, por mais extensas que sejam. A diferença é ontológica: uma eleição não é um jogo de “cara” ou “coroa”. A seguir, uma crítica, digamos, construtiva.  

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer. Aí vão:

1 – o Sr(a) prefere:
    a) continuar com a presidenta atual (Dilma Rousseff)
    b) voltar ao governo do PSDB (Aécio Neves)
    c) indiferente

2 – o Sr(a) votaria em alguém que:
       a) defende a manutenção do emprego de quem trabalha
       b) promete medidas impopulares
       c) indiferente

3) – o Sr(a) apóia o controle nacional do petróleo do pré-sal?
        a) sim
        b) não 
        c) indiferente

4) - A oposição atual representa seu ideal de governo?
     a) sim
     b) não
     c) indiferente

5) Em relação à distribuição de renda o Sr.(a) é:
     a) a favor
     b) contra
     c) indiferente

6) Os atrasos na conclusão de aeroportos e estádios demonstram que:
     a) a iniciativa privada não é confiável
     b) há sempre imprevistos em grandes obras
     c) indiferente


Escolhi agregar todos os votos “não sei/prefiro não responder”, brancos e nulos em uma única opção porque estou interessado somente nas escolhas claras. E indiquei o nome de dois candidatos na pergunta 1 porque este é o desenho do questionário e, conforme o manual da boa pesquisa, o entrevistado deve estar de posse das informações relevantes para responder corretamente. Naturalmente, os entrevistados com preferência por outros nomes ou por nenhum estariam representados na resposta c. 

O diabo é que ninguém acredita que os questionários dos institutos são apenas uma aproximação do que os eleitores perguntam a si mesmos, na hora do vamos ver. Por isso suas pesquisas ao final de uma corrida eleitoral se tornam mais diretas e econômicas, reduzindo o percentual de erro. Ainda assim, por vezes o palpite estatístico é desastrosamente equivocado. É quando o instituto, ao contrário de tentar replicar o que pensa o eleitor, busca fazer com que o eleitor pense como ele. Não dá certo.

(Publicado originalmente no Portal Carta Maior)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os anos eduardianos em Pernambuco

Em razão da campanha presidencial que se aproxima, o Jornal Folha de São Paulo solicitou ao professor Michel Zaidan que preparasse uma material crítico sobre o que foram os anos eduardianos em Pernambuco. O professor resolveu organizar, em temáticas específicas, o que foi essa trajetória, iniciada quando o neto de Arraes derrotou Jarbas Vasconcelos e assumiu, pela primeira vez, o Palácio do Campo das Princesas. De sua sala, no 12º do CFCH/UFPE, o professor Michel atua como um verdadeiro fiscal do poder público, acompanhando, com lucidez crítica e independência, as gestões do Executivo Estadual e Municipal. Perfil melhor para falar da gestão Eduardo Campos, de certo, não haveria. Vamos aguardar esse material sair do prelo.

A Doutrina Putin em 7 pontos

A Doutrina Putin em 7 pontos

Entenda a posição da Rússia no xadrez geopolítico mundial e qual é a mensagem que Putin quer enviar ao Ocidente com a anexação da Crimeia



Nazanín Armanian
Russian Presidential Press and Information Office
Sun Tzu dizia: “É preciso ganhar a guerra antes de declará-la”. Que dados fizeram o Pentágono e a CIA pensarem que seu complô contra a Rússia – de instalar um regime antirrusso em Kiev e integrá-lo com a OTAN – ia prosperar? Se, apesar de contar com milhares de agentes e informantes militares, civis, públicos e ocultos naquele país, os EUA tiveram um fracasso de grande calibre e de consequências imprevisíveis, como então conseguiram elaborar sua tática em um país como o Irã, onde não há nem embaixada? 
 
Os setores belicistas do governo dos EUA cometeram uma grave imprudência ao cruzar a linha vermelha com Moscou, passando de guerras periféricas (anteriormente na Coreia ou no Vietnã, atualmente na Síria) a provocar um enfrentamento direto com a Rússia. Agora, além de engolir a história da integração da Crimeia com a Rússia – em parte graças ao referendo e ao habilidoso uso do vox populi por parte do Kremilin – também tiveram que aceitar a proposta de Moscou de mudar a Constituição ucraniana para transformar o país em uma federação, em um Estado tampão não alinhado. Assim, impedir que se transformasse em outra base da OTAN em suas fronteiras. E talvez seja melhor que não ameacem com mais sanções econômicas se não querem que os russos tirem seu dinheiro do Chipre ou de Portugal e forcem Bruxelas a um novo resgate. 
 
A metamorfose de Vladimir Putin
 
Existia, entre os principais dirigentes russos, a ideia de que “quanto mais dependemos do Ocidente, mais o Ocidente vai depender de nós”, que é o mais parecido com uma doutrina absurda de segurança de homens que, depois de trair os ideais de um mundo justo, estavam ansiosos por fazer um vazio na elite do capitalismo global. 
 
Assim, deixaram que os EUA determinassem o rumo do país, até que “mudanças progressivas quantitativas gerassem mudanças qualitativas” e um dirigente chamado Vladímir Vladímirovich Putin sofreu este mesmo processo na própria pele e agora está mudando o rumo de seus país. Aqui há uma cronologia resumida de como aconteceu: 
 
- 1997: A OTAN firma com Gorbatchev a Ata Fundacional, cujo eixo são “três nós”: que a OTAN não tem “nenhuma intenção, nenhum plano, e nenhuma razão” para levar grandes contingentes militares aos 12 países do antigo bloco socialista. A Aliança estava enganando os russos. Não tardará a romper sua promessa.
 
- 1998 e 1999: Putin, desde o governo de Yeltsin, reprime duramente a rebelião dos chechenos com a ideia de impedir a maior desintegração do país. Ambos os lados cometem crimes de guerra.
 
- Tendo sucedido a Yeltsin em 2000, Putin é tratado com mimos por um Ocidente que pretende desativar sua possível oposição às aventuras bélicas em curso, contar com seu consentimento para instalar bases militares na Ásia Central, implicá-lo na imoral guerra contra o Afeganistão e utilizar seu território para o trânsito dos combios (Rota Norte) – e tudo isso a troco de nada: concessões unilaterais.
 
- 2008: Putin vê como o Ocidente e a Arábia Saudita desestabilizam o Cáucaso. Volta a empregar a mão dura ante a brutalidade dos chefes chechenos.
 
- Putin e sua equipe já se dão conta de que a proximidade com o Ocidente não beneficiou a Rússia. O enfoque brzezinskiano da política externa de Obama, de menos Oriente Próximo e mais contenção da Rússia e da China, é claro e público. Putin recorre à ideia fracassada de Obama de formar um G2 com a China, e fortalece seus laços com o grande vizinho.
 
- Putin projeta uma imagem de força e segurança, e consolida seu poder pessoal. Sua postura anti-Estados Unidos neutralizará os militares “nostálgicos” que vinham exigindo uma política externa contundente em defesa dos interesses nacionais.
 
- Com o aumento do preço dos hidrocarbonetos, melhora a situação econômica da Rússia. A crise financeira do Ocidente faz com que os países afetados aumentem sua dependência em relação aos mercados e aos investimentos das potências emergentes –entre elas, a Rússia.
 
-  Putin suspeita, assim como os chineses, de que as primaveras árabes sejam promovidas pelos EUA para redesenhar o novo mapa da região de acordo com seus atuais interesses e em detrimento da Rússia e da China.
 
- A Líbia é o nome do penúltimo golpe recebido dos EUA: a resolução do Conselho de Segurança propunha uma zona de exclusão aérea e não a troca do regime.
 
- Putin se opõe às ameaças de Washington contra o Irã e a Síria, e concede asilo a Snowden, tentando recuperar a autoridade moral que perdeu ao não se opor ao bombardeio na Líbia.
 
- A profunda decepção do Kremlin com seus “amigos ocidentais”, que na Ucrânia alcança tal ponto que acaba com seu pragmatismo e realismo defensivo para dar lugar ao realismo e à ofensiva, o que dá forma a sua doutrina.
 
Assim fica a Doutrina Putin:
 
- Considerar a instabilidade dos países vizinhos como uma ameaça para a segurança russa e ter o direito de estabilizá-los.
 
- Não confiar nos EUA e na União Europeia. Os trágicos fins de Saddam e Gadafi mostraram que nem uma sólida relação com o Ocidente é garantia de salvar sua pele.
 
- Elevar a autoridade da Rússia em nível internacional para que os EUA não voltem a considerá-la como “uma potência regional”. Com sua história e seu grande patrimônio energético e cultural já demonstraram – por exemplo, na crise síria –, ele é capaz de resgatar o próprio presidente dos EUA de sua autodenominada “linha vermelha”, evitando uma nova catástrofe bélica para o mundo.
 
- Resolver os conflitos internos e também com os vizinhos.
 
- Advertir o mundo de que jogar com a “nova” Rússia terá seus custos: uma das lições da Crimeia.
 
- Embaralhar, quando julgar necessário, a utilização do conceito de “intervenção humanitária e a Responsabilidade de Proteger (R2P)”, tal como seus homólogos ocidentais.
 
- Fortalecer as posições da Rússia na Eurásia, impedir a desintegração do país (Chechênia) e recuperar a influência perdida sobre os ex-membros da URSS e sobre os velhos aliados (Cuba, Vietnã).
 
Luta de classes ou nacionalismo
 
A burguesia russa que dirige o governo por meio do controle sobre a exploração dos recursos naturais do país mantém uma estreita (embora complexa) relação com a oligarquia internacional. Ainda com seus traços particulares, marcados pela história e pela cultura do país, não se pode descartar o uso do nacionalismo russo um tanto exacerbado para exportar a crise interna ou canalizar o descontentamento de setores mais desfavorecidos, por meio de um discurso populista 
 
Segundo o Partido Comunista da Rússia (proibido por Yeltsin em 1991, legalizado em 1993, e hoje a segunda força política do país), a taxa de pobreza subiu a 12,2% em 2013, um ponto a mais do que no ano anterior (nos EUA, essa taxa é de 15% e na Espanha, de 21%). Tais cifras não devem menosprezar o grande trabalho dos russos por se levantarem do duro golpe da desintegração da URSS e das políticas de Yeltsin e companhia, que deixaram 33% da população (49 milhões de pessoas) em um nível escandaloso de pobreza.
 
O índice de crescimento econômico caiu de 3,4% em 2012 para 1,6% em 2013.
 
Os comunistas, que acabam de ganhar a prefeitura de Novosibirsk, a terceira maior cidade do país, denunciam a doença holandesa da economia do país: a dependência da economia em relação às exportações do hidrocarboneto (70% do total em 2012) e que apenas um terço das receitas chegam às alçadas do governo. O resto está nas contas dos empresários nacionais e estrangeiros, e a essa cifra se devem acrescentar os 50-70 bilhões que são extraídos do país por conta da “fuga de capitais”.
 
O PC, que apoiou o direito da Crimeia à livre determinação, assim como a restauração voluntária da União Soviética, denuncia o abandono de 40 milhões de hectares produtivos, que fizeram desaparecer povos inteiros, e o fato de a agricultura representar apenas 4,4% do PIB. Na Rússia emergente e dos grandes magnatas, a expectativa de vida é de 70 anos, ocupando a posição 97 entre 180 países. As políticas sociais do governo continuam sendo insuficientes, ainda que o nível de vida tenha melhorado em relação à década de 90.
 
Mas a pressão sobre a Rússia a empurrará em direção a uma política externa agressiva e a uma ascensão da ultradireita na Rússia e na Europa.
 
Pode ser que o perfil de Putin seja apropriado para uma nação em ascensão e o de Obama, para uma em declínio, mas a única coisa certa é que estamos diante do fim da Nova Ordem Mundial de Bush e que a geopolítica tem uma natureza mutante. Só se pode falar de tendências.
 
* Nazanín Armanian é iraniana e residente em Barcelona desde 1983, data em que se exilou de seu país. Licenciada em Ciências políticas. Ministra aulas nos cursos online da Universidade de Barcelona. Colunista do diário online publico.es.

(Publicado originalmente no portal Carta Maior)

Créditos da foto: Russian Presidential Press and Information Office



Tapioca com açaí...isso pega?

Quando Marina Silva esteve em terras pernambucanas, muito se comentou sobre o cardápio que seria servido na residência de Dois Irmãos. Alérgica e regrada, a irmão deve ter se contentado com uma dieta bem light, bastante diferente daquelas servidas para a comitiva presidencial de Dilma Rousseff, que incluía camarão na moranga, pernil de cordeiro, bolo de rolo, rapadura e outras iguarias do gênero.Eduardo e Marina estão viajando pelo país, em plena campanha para tornarem-se conhecidos, em regiões onde os eleitores ainda não os conhece. Imagino o arranjo que eles estão fazendo para chegarem a algum consenso sobre o cardápio. Tapioca com açai...isso pode dar muito certo? Aqui pelo Alto da Sé, em Olinda, come-se tapioca com quase tudo, mas nunca vi o acompanhamento com açaí. Isso pega?

Uma campanha presidencial raivosa em 2014. Deus te livre de uma ideia fixa.


Parece não haver mais dúvidas de que teremos uma campanha presidencal "raivosa" em 2014. Pelas declarações do ex-governador Eduardo Campos - que anda fazendo um périplo pelo país para tornar-se mais conhecido - não há porque duvidar disso. O que mais nos intriga na fala do candidato é o seu teor de arrogância, prepotência, soberba e vaidade. Ele se coloca como o dono da verdade. Não adimite ser contestado. Aliás, essa prática já teria contaminado toda uma geração de neo-socialistas, forjados ainda nos tempos de faculdade. Fico imaginando como serão os debates presidenciais com candidatos com esse perfil. Numa de suas últimas bravatas, afirmou que Dilma descerá a rampa do Planalto, porque ele a subirá depois de eleito. Irá apear as velhas raposas da política nacional, coisa que ela poderia ter feito e não o fez. Como ele pretende fazer isso, gente? Aliado ao que há de mais atrasado na política brasileira, doutrinado pelo capital internacional, refém de inúmeros interesses em jogo. Tornar-se presidente da República passou a ser uma ideia fixa para o caboclo. Comenta-se que ele alimenta essa ideia desde muito tempo. Antes mesmo de ser governador de Pernambuco. Isso não vem fazendo bem a ele. Como diria o escritor Machado de Assis, "Deus te livre de uma ideia fixa. Antes um argueiro. Uma trave nos olhos". Infelizmente só encontrou assessores para bajulá-lo. Melhor que encontrasse alguém para dizer-lhes algumas duras verdades. Teria sido de melhor proveito. Seu Governo, exibido numa estupenda campanha institucional, aos poucos, quando se desce às minúcias do cotidiano das pessoas, está em crescente processo de derrretimento. A qualidade de vida dos pernambucanos caiu no seu Governo. Acabei de ler que o gestor atual, João Lyra, estaria preocupado com o desempenho dos alunos do ensino médio na região metropolitana do Recife.

Bomba! O telefonema de Dirceu a Dilma!

Bomba ! O telefonema
de Dirceu a Dilma !

Esse Nelson Rodrigues …
O Conversa Afiada se orgulha de oferecer ao amigo navegante um furo de dimensão planetária.

A transcrição do telefonema de José Dirceu, da Papuda, para a Presidenta Dilma Rousseff, no gabinete presidencial do Palácio do Planalto.

Isso só foi possível, porque o Conversa Afiada entrou em contato com Lord Snowdown e conseguiu um Wikileeks muito antes do Fantástico.

Trata-se de generosa colaboração ao edificante trabalho da Procuradora Milhomens, que, movida por uma patriótica “denúncia anônima informal”, resolveu grampear o coração da República.

Clique aqui para ler sobre o impacto dessa salutar decisão na “segurança nacional” e aqui para ver que ela segue superior orientação.

À transcrição que abalará as colunas do Governo:

(Som de gravação – “esta é uma chamada a cobrar. Quando ouvir a identificação, desligue, se não quiser atender”).

José Dirceu – Olá, Dilma, aqui é o Dirceu.

Dilma Rousseff – Fala, Zé ! Tudo bem por aí ?

- Tudo ótimo, Estela. Não podia estar melhor !

- Tão te tratando bem aí ?

- Estela, me sinto no Península de Hong-Kong…

- Como assim ?

- Menina, tenho jacuzzi com gueixas tailandesas …

- Não são gueixas japonesas ?

- Não, Estela, aqui na Papuda são tailandesas…. Lençol de linho egípcio, vinho francês de primeira. O piorzinho é o Pera Manca …

- Quem leva o vinho ?

- O Ricardo Sergio. E, você sabe, a adega dele só não é melhor do que a do Galvão Bueno.

- Gente fina é outra coisa ! E a alimentação ?

-  Vem tudo do Fasano. Espetacular.

- Pensei que fosse da casa do João Dória.

- Não, Estela, isso é pra tucano chic. Eu não passo de um petista…

- Nós, né, Zé ?

- Claro !

- Tá sentindo falta do Delúbio, do João Paulo, do Genoino…

- Muito. Nós tínhamos até planejado roubar o cofre do Gilmar …

- Do Ademar ? De novo ?

- Não, Estela ! Do Gilmar !

- Ah ! Não quero nem saber o que tem lá dentro.

- Não, eu desisti. Sem eles a operação não teria sentido. Era pra pegar a grana e dar pro PT …

- Tem televisão aí, Zé ?

- Tem, mas tem um problema. O Agnelo não comprou Bom-Bril para a antena e a gente vê o jornal nacional sem som.

- Que bom ! E dá pra perceber o noticiário do Kamel ?

- Claro ! Eles só mostram desgraças, cenas de sangue, barbárie  e violência no Cairo, Bagdá, Karachi, Kabul, na Faixa de Gaza. Uma miséria. O mundo está à beira do caos.

- O que é que você está lendo ?

- As obras completas do Fernando Henrique.

- Ninguém merece, Zé.

- Pois é, Estela. Mas, você sabe que estou até achando bom …

- Você pirou aí dentro. Nem o Cerra leu isso !

- Não ! Veja bem. Quando caiu o crime de quadrilha, o Barbosa  resolveu me dar uma pena adicional: ler as obras do FHC … Ele foi ou não foi generoso ?

- De fato. Podia te mandar sentar na cadeira do dragão …

- E não mandou ! Devo ou não devo estar agradecido ?

- Sem dúvida, Zé. Você sabe que a cada dia que passa simpatizo mais com o Barbosa ?

- Eu também, Estela. Tem um coração enorme !

- Claro, Zé, você sabe que ele é mineiro, né ?

- Claro, como você e eu.

- Então, gente conciliadora, gentil, generosa.

- E se o Nelson Rodrigues tiver razão, Estela ?

- O que tem o Nelson Rodrigues, Zé ?

- Não foi ele quem disse que mineiro só é solidário no câncer ?
Nesse ponto, caiu a ligação.



(Publicado originalmente no site Conversa Afiada)

Tarso Genro: Uma explicação para a ofensiva midiática da turma da Petrobrax

publicado em 24 de abril de 2014 às 10:12

Turma da Petrobrax na ofensiva: o monstro da Época e a destruição de Veja. O que há por trás das notícias?
Tarso Genro: O capital está vencendo. Como a esquerda pode barrá-lo?
22 de abril de 2014
Por Tarso Genro
A lenta, mas firme desagregação da esquerda européia depois da quebra da URSS, está ancorada em fatores “objetivos”, tais como as mudanças no padrão de acumulação capitalista –“pós-industrial” como já analisavam alguns economistas há trinta anos — que atravessaram a sociedade de alto a baixo.
Estas mudanças alteraram as expectativas políticas, o modo de vida, as demandas do mundo do trabalho e da constelação de prestadores de serviços, dos técnicos das atividades da inteligência do capital, dos sujeitos dos novos processos do trabalho e de amplos contingentes da juventude.
Estes, originários de famílias das classes médias, que perderam o seus “status” social e o seu poder aquisitivo, adquiridos na era de ouro da social-democracia. A social-democracia não se renovou, nem o comunismo, para responder a estas transformações.
A desagregação, todavia, também está ancorada na ausência de respostas – fator “subjetivo” dominante — dos núcleos dirigentes da esquerda comunista e social-democrata. Esta falta de formulação superior pode, parcialmente, ser atribuída a uma ausência de “caráter” — pela “acomodação” teórica e doutrinária dos seus dirigentes — mas este não é, certamente, o fator preponderante: o vazio de respostas de esquerda à nova crise do capital tem outras determinações mais fortes.
Mesmo aqueles que se jogaram para uma posição “movimentista” — mais, ou menos, corporativa — aparentemente radical (ou os que se propuseram a enfrentar o retrocesso com práticas de Governo ou com novas elaborações no âmbito acadêmico) não conseguiram – nos seus respectivos espaços de interferência – abrir novos caminhos que se tornassem hegemônicos.
A adesão da social-democracia francesa, italiana, espanhola e portuguesa – para exemplificar — aos remédios exigidos pela União Européia (leia-se Alemanha), põe por terra as esperanças que algum governo europeu, num futuro próximo, possa inspirar mesmo uma saída social-democrata novo tipo à crise atual.
Tudo indica que a recuperação da Europa capitalista virá por um canal “social-liberal”, depois de um longo período de reestruturação das classes em disputa. Teremos perdas significativas para os trabalhadores do setor público e privado, para as micro, pequenas e médias empresas, que são responsáveis pela maior parte da oferta de empregos. A isso se agregará uma forte pressão sobre os imigrantes e a crescente redução dos gastos públicos, destinados à proteção social.
Paralelamente a este desmantelamento tudo indica que crescerão as alternativas nacionalistas de direita, de corte autoritário e mesmo neo-fascistas, pois o vazio que gera desesperanças pode fazer renascer o irracionalismo das utopias da direita extrema.
Se isso é verdade, o nosso problema brasileiro é bem maior do que parece. A contra-tendência instituída no Brasil, que criou dez milhões de empregos no mesmo período em que foram destruídos mais de sessenta milhões de postos de trabalho em todo o mundo, está sob assédio.
O nome deste assédio é a garantia do pagamento rigoroso — com juros elevados — da dívida pública, para que o sistema financeiro global do capital possa ter reservas destinadas a bancar as reformas e por em funcionamento um novo ciclo de crescimento das economias do núcleo orgânico do capitalismo global.
Cada uma das alternativas que sejam propostas para o próximo período, visando desenvolver o país, combatendo as suas desigualdades sociais e regionais — sejam elas de inspiração neo-keinesiana ou socialista — só poderão ter efetividade e capacidade de implementação política se mostrarem de maneira coerente como elas se comunicam, acordam ou confrontam, com este cenário global.
Ou seja: como as alternativas poderão ser efetivas no território, numa situação de domínio integral do capital financeiro sobre os cenários econômicos e políticos do mundo.
O internacionalismo hoje é, conjunturalmente, mais democrático e social do que propriamente “proletário”, naquele sentido clássico que foi proposto pelo filósofo de Trévèrs.
As conquistas democráticas e sociais das nações estão bem mais ameaçadas depois da crise que se iniciou com o “sub-prime”, pois os governos são vítimas de uma pressão brutal para reduzir, ainda mais, a sua autonomia política e assim integrar-se, pacificamente, nas contaminações globais da crise.
Apresentar soluções internas, portanto, é também apresentar alianças de sustentação destas políticas no cenário internacional, para que as propostas não sejam voluntaristas ou demagógicas
Caso as formações políticas e os governos não consigam apresentar alternativas aceitas pelo senso comum, dificilmente terão apoio popular para governar. O seu fracasso — e o povo sabe disso — terá reflexo imediato como aniquilamento das conquistas de inclusão social, econômica e produtiva, que ocorreram no Brasil nos últimos dez anos.
Este é, na verdade – nos dias que correm — o dilema, tanto demo-tucano e marino-campista, como do extremismo corporativista e movimentista: ambos deveriam responder qual é, nos quadros da democracia política, o efeito imediato na vida das famílias — especialmente das chamadas “novas classes médias” e dos trabalhadores — dos seus projetos concretos de Governo, demonstrando como é possível aplicá-los pela via democrática.
Os ataques à Petrobras, que vem sendo modulados, tanto pela direita neoliberal como pelas oposições anti-PT e anti-Lula — de corte direitista e esquerdista — talvez sejam a síntese mais representativa desta dificuldade.
O ataque, turbinado pela grande mídia, dá espaço para estes grupos políticos não dizerem, de forma clara (se fossem eleitos), o que fariam com a economia e com as funções públicas do Estado, no próximo período. Unidos, esquerdismo e neoliberalismo, desta vez no ataque ao Estado — não somente ao Governo — ficam absolvidos de fazerem propostas para dizerem como o país deverá operar, gerando emprego e renda, ao mesmo tempo que se defende da tutela do capital financeiro e das pressões da dívida pública.
A desmoralização de um ativo público da dimensão da Petrobras, os ataques ao seu “aparelhismo” político, a crítica aos gastos públicos excessivos (programas sociais, na verdade), os ataques às políticas do BNDES – de forma combinada com um permanente processo de identificação da corrupção com o Estado e com os Partidos em geral — fecham um quadro completo do cerco ao país: liquidem com a Petrobras e teremos o Estado brasileiro pela metade; acabem com os gastos sociais e teremos uma crise social mais profunda do que a das jornadas de junho; restrinjam o BNDES e o crescimento – que já é pífio — se reduzirá ainda mais; desmoralizem os partidos e a política e a técnica neoliberal substituirá o contencioso democrático.
Como os militares estão aferrados às suas funções profissionais e constitucionais e não estão para aventuras, o golpismo pós-moderno vem se constituindo através da direita midiática. Esta, se bem sucedida no convencimento a que está devotada, encarregaria um novo Governo social-liberal da desmontagem do atual Estado Social “moderado”, obtido no Brasil num cenário mundial adverso.
Lido este cenário de refluxo da esquerda e de retomada dos valores do neoliberalismo selvagem, que devasta as conquistas da social-democracia européia, pode-se concluir que o debate verdadeiro no processo eleitoral em curso – momento mais importante da nossa democracia republicana concreta – é o seguinte: ou o projeto lulo-petista se renova, baseado no muito que já fez e conquista novos patamares de confiança popular; ou o refluxo direitista liberal, que assola a Europa, chegará em nosso país pela via eleitoral, legitimado por eleições democráticas.
A semeadura da insegurança, que precede as inflexões para direita, está em curso em todos os níveis e para responder a esta sensação manipulada — que vai da economia à segurança pública — é preciso dizer de maneira bem clara quais os próximos passos contra as desigualdades e contra perversão da política e das funções públicas do Estado. Chegamos a um momento de defesa política de um modelo novo combinado com a velha luta ideológica.
Recentemente o MST, no seu Congresso Nacional, deu uma demonstração de acuidade política e clareza programática. Fez a vinculação da questão agrária do país a um novo conceito de reforma: vinculou as demandas particulares dos deserdados da terra à produção de alimentos sadios para os cidadãos de todas as classes, numa verdadeira rebelião agroecológica, que faz a disputa no terreno da produção e da política.
Particularmente ele se reporta àqueles que mais sofrem os efeitos “fast-foods”, turbinados por agrotóxicos e por malabarismos genéticos, cujos efeitos sobre a espécie humana ainda não são avaliáveis na sua plenitude.
Trata-se, na verdade, da superação de uma demanda particular de classe – uma reforma agrária baseada na mera redistribuição da propriedade – para um plano universal de interesse da totalidade do povo, sem a perda das suas raízes classistas. Belo exemplo que vem do povo para ser absorvido e renovar a cultura política da esquerda.
O capital financeiro, no mundo, está vencendo, mas pode ser barrado pela imaginação criadora de uma esquerda que seja consciente da grandeza das suas tarefas nos momentos de refluxo. O MST deu um belo exemplo. A esquerda o seguirá?
PS do Viomundo: Do ponto-de-vista meramente eleitoral, a atual ofensiva tira da candidata Dilma um tema que ela usou extensivamente em 2010, ou seja, a ameaça da privataria que paira sempre sobre os tucanos. Agora Aécio pode se apresentar como a pessoa que vai “salvar” a Petrobras. Sei.

(Publicado Originalmente no Viomundo)